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Garotas e heróis divididos em dois

Luiz Carlos Merten

11 Julho 2008 | 15h32

Minha colega Beth Néspoli detesta quando fico falando de mim – por exemplo, que fui para a estrada à meia-noite, saindo de Paulínia (com I) e cheguei às 2 da manhã em casa. E eu com isso?, reclama ela, que quer saber de idéias, não do meu querido diário. Mas a verdade é que ‘só’ para as idéias já tenho o jornal e a rádio. No blog, é preciso um plus a mais, como diz o Daniel Filho, que, a propósito, já havia dirigido o ângelo Paes Leme naquele filme do uísque e do gelo. Prosseguindo – cheguei cedo hoje no jornal, porque tinha uns textos para redigir, incluindo os filmes na TV de sábado e um par de matérias que vocês vão poder ler amanhã no ‘Caderno 2. Tudo isso, mais a participação na rádio, eu tinha de resolver até 10 horas, para poder assistir a ‘La Fille Coupée en Deux’, de Chabrol, na Reserva Cultural. Já havia visto o filme, que vai se chamar aqui ‘Uma Garota Dividida em Dois’, em janeiro, em Paris, no Encontro do Cinema Francês, para entrevistar o diretor. Mas vi a ‘Garota’ em DVD – é outra coisa no cinema. A TV foi a minha cinemateca em Porto Alegre e hoje eu não me importo de rever filmes na telinha, mas a primeira vez tem de ser, preferencialmente, no cinema. É outra coisa. Alessandro Giannini e Inácio Araújo estavam lá, mas só conversei com os dois antes da sessão. Amo o filme do Chabrol, que me parece um dos melhores dele, à altura da grande fase por volta de 1970, de ‘A mulher Infiel’, ‘A Besta Deve Morrer’ e ‘O Açougueiro’, que são os meus ‘Chabróis’ ´preferidos. Bom, agora vou ter acrescentar ‘La Fille Coupée en Deux’. Na saída da sessão, um garoto comentou comigo que o fim era ridículo e destruía o filme. Ia polemizar, mas deixei passar. Justamente o fim é que dá sentido a ‘La Fille’ – adorei! Uma semana com dois grandes filmes, o Batman, ‘Cavaleiro das Trevas’, e o Chabrol, só posso estar feliz da vida, não? E, de certa forma, os dois têm tudo a ver. A filha dividida em dois – dois homens e duas concepções de família e de vida – e a dicotomia Batman/Coringa são muito próximos, embora este seja um discurso para você e eu – nós, o público – fazermos. Claro que nem Chabrol nem Nolan planejaram issoe menos ainda conjuntamente. Conversei um pouco sobre isso com o Giannini. A cena do andaime, do diálogo entre Batman e o Coringa, é o toque de gênio de ‘Cavaleiro das Trevas’. Não vou dizer por quê, já que seria tirar a graça. Mas prestem atenção, pelamor de Deus. E o filme de Christopher Nolan não deixa de tratar da questão da imagem pública versus privada, tema que Chabrol também encara (por meio da televisão). Batman e ‘A Garota’ estréiam na próxima sexta, dia 18. Desta vez, pelo menos, o blockbuster de Hollywood não é menos de ‘autor’ do que o filme francês.