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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2009 | 17h37

Estou há dias – desde segunda-feira – querendo acrescentar um post sobre ‘Gardênia’, que vi no Sesc dr. Vila Nova. A montagem de Marat Descartes é uma adaptação/condensação de ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, romance de Gabriel García Márquez que foi filmado por Mike Newell. O filme encerrou o Festival do Rio, acho que em 2007. Na época, a crítica dividia-se entre os que haviam sentido amor ou cólera por Newell. Não creio que o filme fosse ruim, ou melhor, era, mas o livro era muito bem adaptado. O roteiro era sólido e o problema eram os compromissos de uma filmagem internacional. Elenco irregular, falado em inglês. Mas o fascínio e, mais do que isso, a grandeza da história estavam lá dentro. Lembro-me que García Márquez havia gostado, mas isso não queria dizer nada para os amantes do escritor que também eram, inimigos de Newell. Era como se Márquez, afinal, fosse um vendido a Hollywood. Tergiverso antes de chegar a ‘Gardênia’. Não creio que se trate de uma ‘peça’ e a sensação que tive foi curiosa – a dramaturgia me pareceu tênue e me levou a pensar comigo que grupos e coletivos, querendo fazer teatro autoral, enveredam por vias curiosas. Durante muito tempo reclamou-se da falta de roteiristas no cinema brasileiro. Os diretores, como autores, escreviam também os próprios roteiros e eles, muitas vezes, eram fracos, o nó górdio de filmes que poderiam ser até melhores. Sinto às vezes essa debilidade no afã de inovar que vejo em tantas montagens. Também achei excessivas todas aquelas projeções, cujo objetivo é claramente distrair/colorir a atenção do espectador, que talvez julgasse muito pesado carregar só na força das palavras e na presença, na carnalidade dos atores. E aqui chego ao que me encantou. Pois ‘Gardênia’ me tocou muito. Antes de o espetáculo começar, exerci por alguns minutos os meus preconceitos. Não achava que fossem dar conta da complexidade de García Márquez. Não era um parti pris intelectual, porque nem conheço muito o trabalho dos atores (ou não conhecia). Chamam-se Cybele Jácome e Luís Mármora. Era mais uma coisa física. Pois nem Javier Bardem deu conta do personagem, da sua paixão, da sua virilidade e, no limite, da palavra que é sua força e sua fraqueza. A insistência de Florentino em ganhar aquela mulher, a dificuldade em vencer a resistência de Fermina. Quando a peça começou, o suor de Mármora sob aqueles refletores começou a me incomodar. Mas foi só um pouco. Pois o ator foi me ganhando. Achei-o maravilhoso. O próprio partido da peça foi operando sobre mim. Aqueles dois personagens que falam de si na terceira pessoa e a maneira como vão se personalizando. No final, quando Mármora tira Cybele para dançar, acho que Fred Astaire e Ginger Rogers não teriam tido maior química para mim. Havia ali só elegância, encantamento e um,a pitada de malícia. Lamento muito não ter tido tempo de postar nada sobre ‘Gardênia’, ontem. Era o último dia do espetáculo e houve uma sessão extra para a terceira idade. Espero que Cybele Jácome e Luís Mármora voltem para que mais gente possa descobri-los, como eu.

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