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Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2006 | 18h09

Fernanda Montenegro me contou o que eu não sabia. Ela acaba de chegar (ontem) de Londres, onde filmou cenas de interiores de O Amor em Tempos de Cólera. Fernanda já havia filmado na Colômbia, mas sua participação prosseguiu com as cenas rodadas na Inglaterra. O Amor, claro, é a adaptação do romance de mesmo nome de Gabriel García Márquez. Co-produção anglo-americana, tem direção de Mike Newell, o que pode surpreender, porque ele, em princípio, não parece o mais indicado para entrar nos labirintos do realismo mágico de Gabo. Mas Newell é muito capaz, me disse Fernanda Montenegro, o que também acho, menos por seu Harry Potter (O Cálice de Fogo) do que por O Sorriso de Mona Lisa, filme do qual gosto muito e que me parece superior a Longe do Paraíso, de Todd Haynes, com o qual tem muitos pontos de contato, acho. Fernanda disse que seu papel é importante. faz a mãe do herói, com direito a muitas cenas, mas não sabe se elas vão permanecer na edição final. Newell formou um elenco de jovens de origem latina e, embora o filme seja falado em inglês, o diretor teve a preocupação de submeter o elenco aos cuidados de um ‘coach’ (treinador/preparador de atores) para que todos falasssem inglês com sotaque caribenho, para dar unidade a O Amor em Tempos de Cólera. García Márquez tem sido, no cinema, parceiro de Ruy Guerra, mas, sem ofensa, o meu Gabo favorito na tela é Ninguém Escreve ao Coronel, com direção do mexicano Arturo Ripstein. Lembro que quando entrevistei Anthony Quinn em Curitiba, onde ele filmava Oriundi, de Ricardo Bravo, o eterno Zorba, que havia sido o Zampanò de La Strada, de Fellini, me disse que tinha dois sonhos de ator, que afinal não concretizou. Queria fazer Os Velhos Marinheiros, baseado no Jorge Amado, e O Outono do Patriarca, baseado em García Márquez. Por seu apoio a Cuba e a Fidel Castro, o escritor virou objeto de ódio de… Você sabe quem. Não basta desqualicá-lo como apoiador de Fidel. A palavra de ordem é aviltar García Márquez como jornalista e escritor. Mas ele fascina muita gente e a pergunta certa não é como nem por que, mas a inversa – como não fascinar?