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Luiz Carlos Merten

11 Fevereiro 2009 | 18h08

BERLIM – Integrei o grupo que teve um choque assistindo à primeira exibição de ‘Garapa’. O próprio José Padilha, apresentado (com todas as honras) por Wieland Speck, programador do Panorama, como o diretor que ganhou o Urso no ano passado, disse que em geral não gosta de apresentar seus filmes, até porque acha que não vai poder participar de todas as exibições (e o filme precisa falar por si), mas dessa vez ele achou importante contextualizar o problema da fome. Segundo dados da ONU, um em cada 6,5 habitantes do mundo é subnutrido. Padilha, ao encarar o problema, optou por um approach emocional, não intelectual. Ele reconhece que o cinema possui essa incrível capacidade de provocar empatia e de nos lançar em outros universos – citou especificamente a série ‘Star Wars’ -, quase sempre com o objetivo de proporcionar diversão (e não condenou os diretores que assim fazem). No seu caso, ele queria que o espectador compartilhasse essa sensação terrível de morrer de fome (ou de viver sub-alimentado, sem os nutrientes necessários à sobrevivência, o que não deixa de ser outra morte). ‘Garapa’ não é um filme fácil e, menos ainda, agradável. Vai dar o que falar. A realidade enfocada não é uma exclusividade do Brasil e Padilha está interessado em discutir a falta de vontade política de resolver o problema. O mundo investe mais em armamentos do que em programas para combater a fome – outro documentário aqui em Berlim, ‘The Shock Doctrine’, de Michael Winterbottom, explica porque isso ocorre. Em síntese, para fortalecimento do próprio capitalismo. Padilha foi cobrado sobre o Programa Fome Zero. Disse que funciona porque o governo brasileiro se limita a dar dinheiro (pouco), não investe em educação (uma calamidade, no Brasil). Ele reconhece que não mudou a vida das famílias que acompanhou, porque senão não haveria o filme, e sua contribuição para esse debate é o filme. Achei duas coisas complicadas – as intervenções do diretor, que não me pareceram muito brilhantes (tudo bem, ele não queria ‘intelectualizar’) e, por outro lado, o fato de que a miséria das pessoas é tão moral quanto material. Existem cenas de um casal se agredindo e de gente lavando roupa suja de vizinhos que me deprimiram profundamente. A fome é um problema, já dizia Ingmar Bergman, mas já que ele vivia (e produzia) na Suécia, um país rico, a fome que lhe interessava era a de afeto, a de sexo. Padilha mistura tudo. Há uma miséria social e outra, digamos, ontológica, para usar uma referência filosófica. Foi ruído demais na comunicação, mas, claro, essa é uma primeira impressão e os filmes de Padilha nunca são fáceis de apreender imediatamente (ponto para o diretor). O que vai ser impossível será fugir de ‘Garapa’. Prepare-se, porque a barra é pesada. Imagino – ou será melhor dizer espero? – que Amir Labaki já esteja se mobilizando para levar ‘Garapa’ para o É Tudo Verdade.