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Luiz Carlos Merten

05 Março 2012 | 19h32

Já contei mil vezes que não tenho muita paciência com Marilyn Monroe. Gosto de vários de seus filmes – ela trabalhou com grandes diretores, de Joseph L. Mankiewicz a George Cukor, de John Huston a Billy Wilder –, mas Marilyn, a ideia de Marilyn, me cansa. Começou no sábado o evento sobre ela na Sala Cinemateca. São filmes e mais de cem objetos que tentam decifrar seu mistério. Sem desmerecer a iniciativa, não creio que exista outro mistério de Marilyn senão sua presença na tela. Dela emanava alguma coisa bem animal, que atiçava a libido. Isso é certo, mas tenho, para mim, que Marilyn, como ícone de feminilidade, virou um estereótipo, tão viada que muitas vezes parece uma travesti, uma drag queen. E a vozinha dela, sinto, tende a me irritar. Detesto um mulherão daqueles que fala tati-bitati, infantilizada, embora deva ser essa a chave. Para os brucutus, é a perfeição. A fêmea no cio que pode ser controlada como criança. Justamente essa persona ambivalente, trabalhada por grandes diretores, conferiu tragicidade ao mito. ‘Sugar’ é deslumbrante e a cena da estação, em que a câmera segue seu requebro, é muito sugestiva, mas, no limite, o que fez/faz a fama de ‘Quanto Mais Quente Melhor’ não é Marilyn nem Tony Curtis, mas Jack Lemmon, vestido de mulher e arrancando de Joe Brown a frase antológica – ‘Ninguém é perfeito.’ Ela também é ótima no número ‘My Heart Belongs to Daddy’, de ‘Adorável Pecadora’, mas Cukor, gay de carteirinha, e que não era bobo, reverte a expectativa e faz de sua comédia musical uma espécie de investigação sobre a identidade do homem moderno na sociedade matriarcal. Sempre achei, por isso, que o filme poderia ser refeito no contexto do pós-feminismo. Yves Montand, o homem mais rico do mundo, quer impressionar a corista. Como o dinheiro não consegue comprá-la – ao contrário do que sugere ‘Diamonds Are Girls Best Friends’, em outro êxito de Marilyn, ‘Os Homens Preferem as Loiras’, de Howard Hawks –, o herói tem de se superar. Aprende a dançar com Gene Kelly, a cantar com Bing Crosby e a atuar/contar piadas com Milton Berle. Só assim a simplória Marilyn, que passa o tempo tricotando – a reinvenção de Penélope –, vai se render ao charme de Montand e ele próprio, no processo, humanizado pela arte, vai ser um homem melhor. Vejam – mesmo quando não quero, termino gostando dela. Pode ser que minha visão do mito seja equivocada. Não pretendo ser dono da verdade – mas acho que fiquei muito marcado pelo que disse Roy Ward Baker. Roy quem? É um diretor inglês que sempre achei subestimado. Os marcianos de ‘Uma Sepultura na Eternidade’, o pistoleiro gay (Dirk Bogarde) que disputa com Mylène Démongeot as atenções do padre do vilarejo mexicano em ‘A História de Um Homem Mau’, as vampiras lésbicas de ‘Os Amantes Vampiros’ (adaptado de Sheridan le Fanu, ‘Carmilla’), Roy Ward Baker era do balacubaco. Em 1952, ele deu a Marilyn seu primeiro papel estelar, como a babysitter neurótica de ‘Almas Desesperadas’, Don’t Bother to Knock, que não sei se está no ciclo da Cinemateca (mas deveria, até pelo valor histórico). Baker disse que Marilyn, nascida Norma Jean, acreditava tanto na persona que criou que era dual. Podia ser apática, como Norma Jean, e de repente, como se um botão tivesse sido apertado, encarnava MM e virava o próprio descontrole. OK, de perto ninguém é normal, mas Marilyn, segundo Baker, não batia bem.