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Luiz Carlos Merten

14 Dezembro 2007 | 08h24

Bom-dia! Tivemos de fechar ontem a edição de sábado do ‘Caderno 2’ por causa de um anúncio, mas estou aqui cedinho na redação, a caminho – daqui a pouco – do Shopping Market Place para assistir ao novo filme da Xuxa, dirigido pelo Foguinho, que fez ‘Anjos do Sol’. Confesso que estou frustrado nesta sexta-feira porque a Sony decidiu – pelamor de Deus! – na última hora lançar ‘A Maldição da Flor Dourada’, fecho da belíssima trilogia de artes marciais de Zhang Yimou e, por uma combinação de horário e espaço, eu terminei não publicando nada sobre o filme que eu amo. Ocorre que entrevistei Gong Li, Chow Yun-fat e o próprio Yimou, o que significa que tenho um extenso, e riquíssimo, material que não quero sacrificar. Se a estréia tivesse sido anunciada – alô-alô, Sony! – teríamos tido tempo de preparar, de antecipar. ‘A Maldição’ tem o deslumbramento visual de ‘Herói’ e do ‘Clã das Adagas Voadoras’, mas tem mais pathos – ou drama – porque a história desse rei que fragmenta sua família para manter seu império vai um pouco na contramão de ‘Rei Lear’, mas com a mesma intensdidade dramática da peça de Shakespeare, que Kurosawa (‘Ran’) e Kozintsev (‘Rei Lear’) filmaram. Sei lá quando vou poder falar da ‘Maldição’… Segunda-feira? Maldição é isso. A distribuidora ficou anunciando o filme para o ano que vem e agora o joga às feras. Muito legal! Minha outra frustração refere-se a ‘O Império dos Sonhos’. Não gostei do novo David Lynch e confesso que me aborreço quando ouço falar na imprevisibilidade de Lynch, na sua invenção. uma que ele não inventa mais nada. Repete-se. E dois, que o cara virou gênero de si mesmo e, portanto, há um grau muito grande previsibilidade no seu cinema, mesmo quando parece estar na subversão. Como ‘O Império’ tem coelhos, ninguém me tira da cabeça que aquilo é a uma referência a Lewis Carroll e que Laura Dern pode ser uma Alice, não no país das maravilhas, mas no do pesadelo. E se tem Carroll, coelho, Alice, tem de ter um espelho, que vira a grande metáfora do filme. Pessoalmente – foi o que escrevi no ‘Caderno 2’ –, diverti-me muito mais com o espelho (a TV) que também midiatiza o mundo em ‘Encantada’, o novo (e delicioso) desenho da Disney. Mas minha frustração com o novo David Lynch refere-se ao seguinte. Não coloquei no meu texto que o filme foi feito em digital. Não que isso devesse ser decisivo para a sua avaliação estética, mas hoje em duia o baixo orçamento, o digital, tudo isso faz parte da cara e da intenção do filme. A verdade é que Lynch, se ganhou em liberdade – ele acha –, terminou fazendo seu filme mais tosco, ou que parece mais tosco, enquanto imagem. E isso significa que ‘Inland Empire’ (o título original) não tem o esplendor visual que eu tenho de reconhecer em outros filmes do diretor, mesmo que, eventualmente, não goste muito deles – gosto de ‘O Homem-Elefante’, ‘Veludo Azul’ e um pouco de ‘Twin Peaks’ e ‘A Estrada Perdida’. Tá bom demais da conta para as bizarrices do diretor, como diriam os mineiros.