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Cultura » Fritz Lang e a psicanálise

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Luiz Carlos Merten

24 Fevereiro 2012 | 09h24

Na quarta à noite havia iniciado um post sobre os lançamentos em DVD de Fritz Lang, ou o lançamento. Recebi ‘O Segredo da Porta Fechada’ e até me esqueci do nome do outro, acho que foi o Fábio que pediu, mas não consegui localizar o post com o comentário. Já era tarde da noite, viajava cedo pela manhã – fui ao Rio, num bate e volta rápido – e resolvi deixar pronta a matéria sobre ‘Albert Nobbs’ e Glenn na edição de hoje do ‘Caderno 2’, para não complicar demais minha manhã. Voltei ontem à noite, fui jantar com a Lúcia – era o aniversário da minha filha –, a combinação moqueca + vinho me derrubou e agora, de volta à redação do ‘Estado’, vou tentar reiniciar o post sobre o DVD. Aliás, a porta do filme é cerrada ou fechada? Os dicionários de cinema fornecem a primeira opção. Exceto na França – é assim que Peter Bogdanovich inicia seu livro ‘Fritz Lang na América’ –, a obra norte-americana (hollywoodiana) do grande autor alemão sempre foi subestimada, embora some mais da metade de seus filmes. Com exdceção de ‘Fúria’ e ‘Vive-se Só Uma Vez’, os críticos construíram o clichê de que o Lang norte-americano era indigno do expressionista, uma estupidez sem tamanho, já que ‘M’ e ‘Moonfleet/O Tesouro do Babra Rubra’ compartilham a mesma visão sombria do mundo, em que o homem se bate com seu destino, e perde. Eu confesso que sigo na contramão. Não sou um grande fã de ‘Metropolis’ e creio, honestamente, que, à parte ‘M’ e algum ‘Mabuse’ – mas o melhor é o último, pós-Hollywsood, o profético ‘Os Mil Olhos’ –, a obra alemã de Lang envelheceu ou ficou datada, não me apetece tanto. Em compensação, assisto sempre com imenso prazer os filmes norte-americanos, mesmo os menores, descobrindo a cada visão coisas que me haviam passado despercebidas antes. Assisti a ‘O Segredo da Porta Cerrada’’ numa reprise do filme, nos anos 1960, em Porto Alegre. Não saberia dizer a data, mas muitos de vocês não deveriam nem ser nascidos. Sempre achei que era o filme ‘hitchcockiano’ de Lang – como ‘O Açougueiro’ é o filme ‘langiano’ de Claude Chabrol. Mais tarde, descobri que sua fama é a de ser o mais onírico, barroco e poético dos filmes que Lang fez em Hollywood. Onírico e poético, sim, mas barroco? Fui à Bíblia, o livro de Bogdanovich, em que ele entrevista o autor e o próprio Lang analisa, um a um, seus filmes. Descobri, para minha surpresa, que Lang não tinha muito apreço pelo ‘Segredo’, mas, até aí, tudo bem, os artistas nunca são os melhores críticos de sua obra. Mas Lang conta, e isso me interessou muito, que era um cinéfilo de carteirinha. (Lembro-me que ele disse uma coisa que me marcou, quando Sérgio Augusto o entrevistou no Rio, nos anos 1960. ‘Todo filme é sempre interessante, nem que seja como demonstração daquilo que não se deve fazer em cinema”, alguma coisa assim.) Lang conta que fui muito marcado pelo clima (gótico) de ‘Rebeca, A Mulher Inesquecível’, único Oscar de melhor filme de Alfred Hitchcock (mas ele não ganhou o de direção), adaptado de Daphne Du Maurier. Lang amava a cena em que Judith Anderson mostra a Joan Fontaine os vestidos, as peles de Rebeca e é como se ela estivesse ali. Lang acrescenta que nunca teve medo (pudor?) de roubar dos grandes cineastas. Aquela era uma cena de que ele queria se apropriar e julgou que seria possível no roteiro de ‘O Segredo da Porta Cerrada’, que lhe foi oferecido pelo produtor Walter Wanger, depois que o filme (o tal roteiro) já havia adquirido reputação de maldito e ninguém o conseguia tirar do papel. Lang quis repetir a cena de Hitchcock quando Michael Redgrave fala dos quartos da casa. Ele acha que não foi bem sucedido – Lang é muito sugestionável no livro. Se o filme não foi bem de público, ele o descarta. O filme é sobre essa mulher que se casa e descobre a obsessão do marido por assassinatos. O que ele guarda neste quarto que mantém fechado dentro da casa? O quarto pode ser uma metáfora do inconsciente, sobre o que há de mais secreto na mente das pessoas, um pouco como a chave de ‘Tão Forte e tão Perto’, de Stephen Daldry, que estreia hoje nos cinemas. Sempre gostei muito do clima, e dos atores do filme, embora ‘sempre’ seja uma forma de expressão, pois só ‘O Segredo’ uma vez. Estou escrevendo de memória. Lang admite que teve problemas com Joan Bennett, a quem dirigira em ‘Um Retrato de Mulher’. Ele queria que a voz do inconsciente da personasgem fosse feita por outra atriz, pois se trata da manifestação de uma outra mulher, mas Joan ficou aborrecida, disse que ele passaria atestado de que ela era incompetente etc. Lang aceitou, mas nunca se convenceu. Outra coisa é que ele acha a solução final, a ‘cura’, muito rápida. Um amigo lhe observou que, naquele tempo, os anos 1940, a psicanálise ainda era um território novo, um mistério, principalmente no cinema. Hitchcock havia feito ‘Spellbound/Quando Fala o Coração’, um ou dois anos antes. Não se sabia muito sobre ela, produzia mal-entendidos. Lang responde que ele, sim, sabia, e o verbo está grifado no texto. Teria de (re)ver ‘O Segredo’, mas até onde me lembro o filme é bom, denso – adoro quando esses austríacos e alemães (Lang, Billy Wilder) resolvem ser hitchcockianos. ‘A Vida Secreta de Sherlock Holmes’ é maravilhoso, imerso no mesmo clima de ‘Rebecca’ e ‘O Segredo’. E eu confesso que estou em lua de mel com Lang. Quando escrevi que ‘O Desprezo’, que revi no avião, na volta de Berlim, é o ‘meu’ Godard, vocês podem estar certos de que a presença de Lang, como o diretor do filme dentro do filme, contribui para isso.