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Frio como mármore

Luiz Carlos Merten

19 Outubro 2011 | 17h46

‘Casa de Bonecas’, ‘A Felicidade’… Confesso que nunca sei se gosto de Todd Solondz. Acho-o interessante e assisto a seus filmes, mas tenho comigo que, visto um, a impressão é de ter assistido a todos, naquele visão mais cínica do que propriamente irônica da classe média norte-americana. O cinema de Solondz pinta um mundo frio e de relações familiares disfuncionais – tomei um choque quando descobri que papai e mamãe são interpretados por Christopher Walken e Mia Farrow. O filme tenta ser diferente, com seu protagonista que viaja na fantasia, criando um mundo paralelo, imaginário, até o desfecho no cemitério. O herói sente-se massacrad0 em casa, no trabalho. É mais um carinha incapaz de assumir as rédeas de sua vida. Só reclama, e culpa os outros. O pai, o irmão… Arrisco-me a ser massacradso, mas, para mim, Todd Solondz e Sérgio Bianchi são almas gêmeas. Embora prefira o brasilkeiro, certos filmes, pelo menos – ‘Romance’ e ‘Causa Secreta’ -, o olhar desencantado que os dois lançam sobre a humanidade me parece muito próximo. Ri menos em ‘Dark Horse’ do que em outros filmes de Solondz. O título poderia ser traduzido como ‘O Azarão’, pois mostra um sujeito que teria de virar as circuinstâncias em seu favor, mas que segue de desastre em desastre, até o inevitável. A estrutura narrativa é intrigante, algumas cenas – e os atores e as atrizes – são boas/bons, mas no final saí do cinema como uma sensação de vazio. Acho que o que me incomoda no cinema de Solodz é a ausência, ia escrever a impossibilidade, de empatia. Não consigo me identificar com aquela gente e, por isso mesmo, até o que seria o pathos – o final -, não me atinge. Não vou dizer que é perda de tempo, mas quase.