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Cultura » Freud, segundo Huston (e Sartre)

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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2009 | 23h02

Cheguei agora da rua, disposto a escrever sobre ‘Freud, Além da Alma’, que a Versátil está lançando num DVD duplo – incluindo um especial, ‘Freud em Viena’, de 44 minutos, mas não sei por que, peguei a autobiografia de John Huston, ‘Um Livro Aberto’, para ver o que ele próprio pensava do filme. Ninguém é mais (auto)crítico do que o diretor. Ele reconhece que ‘Freud’ tem algumas coisas boas, a começar pela interpretação de Montgomery Clift, com quem teve sérios problemas durante a rodagem, mas é o primeiro a apontar falhas. A cena inicial entre Freud e a mãe, segundo Huston, saiu fraca e faz o filme decolar de forma pouco auspiciosa. E ele acha que não cumpriu sua proposta inicial. Quando começou a pensar seriamente num filme sobre o pai da psicanálise com o produtor Wolfgang Reinhardt, Huston queria que ele tivesse ‘cheiro de enxofre’. A descida de Freud ao inconsciente teria de ser tão aterradora quanto a de Dante ao inferno. Com essa idéia na cabeça, Reinhardt e Huston procuraram Jean-Paul Sartre para que escrevesse o roteiro. ‘Freud’, lançado em 1962, nasceu para ser um suspense intelectual. Huston já montara uma peça de Sartre no teatro, em Nova York, nos anos 1940 (‘Entre Quatro Paredes’). Mais tarde, quase adaptou para o cinema ‘O Diabo e o Bom Deus’. O que levou o cineasta, neste caso, a Sartre, é difícil de explicar, até para (ou por) ele. Sartre era comunista e antifreudiano. Achava as teorias de Freud válidas do ponto de vista científico, porque contribuíam para o conhecimento de camadas profundas do humano, mas não via muita importância social na psicanálise. Era cara, privilégio de ricos e dificilmente aplicável às massas. Sartre escreveu um roteiro que Huston (e a empresa produtora Universal) consideraram infilmável. O ponto, desse roteiro, era a evolução da teoria do complexo do Édipo descoberta por Freud. Huston estimava que seria necessário no mínimo um filme de 5 horas. Forçado a reduzir seu roteiro, Sartre, na verdade, o ampliou e as 5 horas viraram presumíveis 8. Em desespero, Huston dispensou Sartre e contratou Charlie Kaufman para reduzir o roteiro. Também não deu certo. Kaufman seguiu a velha fórmula dos filmes biográficos da Warner antes da guerra, que era tudo o que o diretor não queria. Como o próprio Reinhardt sabia bastante sobre a vida de Freud (e a psicanálise em geral), coube ao produtor podar o script (que foi datilografado por Gladys Hill e ela também deu sua contribuição). Huston jura que a estrutura geral de Sartre foi mantida – e até diálogos inteiros. Não houve litígio na escolha de Monty Clift, mas o ator, que se analisava há muitos anos, achava que sabia tudo sobre psicanálise e começou a torpedear o roteiro, tentando mudar – ‘aprimorar’ – suas falas. Marilyn Monroe foi a primeira escolha para o papel de Cecily, mas o terapeuta da atriz foi contra – achou que poderia ser prejudicial ao tratamento dela – e Marilyn foi substituída por Susannah York, que se aliou a Monty contra Huston. Por tudo isso, ‘Freud, Além da Alma’ foi uma descida ao inferno, mas não no sentido que Huston esperava. A própria ideia dramática – fazer a narrativa progredir acompanhando as fases que levaram à criação da teoria do complexo de Édipo – criava problemas. Cada fase tinha de ser muito bem assimilada pelo público, sem chamar atenção para o processo didático. Quando o estúdio recuou de certas cenas – a exploração da sexualidade infantil ainda é um tabu hoje, que dirá há quase 50 anos -, os elos que faltavam passaram a afetar a coerência lógica do conjunto. Lembro-me que P.F. Gastal, em Porto, definia ‘Freud’ como um filme ‘frustrado’. Mesmo estando longe de ser perfeito, é fascinante, como aventura do espírito humano. As cenas de sonhos são não raro brilhantes e o desfecho – Freud dá sua célebre conferência sobre o complexo de Édipo para uma platéia hostil e sai para a rua – metaforiza a crise por meio de uma ação. Há um tumulto, Freud perde a cartola e exige que o homem que o insultou a apanhe do chão. A intensidade da cena depende muito da interpretação e essa é uma das que melhor expressam o gênio de Monty Clift, malgrado todos os problemas que criou para a produção. Numa cena, Huston, irritado, chegou a dizer que não descartava a hipótese de matá-lo. Sua fama de diretor desumano (com os atores) vem daí. Pouco antes de ‘Freud’, Monty também tirou Joseph L. Mankiewicz do sério, durante a rodagem de ‘De Repente, no Último Verão’, outro papel psicanalítico. Katharine Hepburn tomou o partido do ator e chegou a cuspir no diretor, dizendo que ele humilhava Monty sem necessidade, só para afirmar seu poder. Huston observa que as mulheres mais velhas se enterneciam com ele. Monty era homossexual, todo mundo sabia, mas fazia o gênero gay atormentado. Perante as mulheres, representava o papel do fraco, motivando-as a virarem mães adotivas. Esse edipianismo do ator na vida talvez tenha sido seu instrumento para entrar no papel.

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