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Frank Tuttle e a alma torturada de Alan Ladd

Luiz Carlos Merten

14 Janeiro 2018 | 09h49

PORTO ALEGRE – Nao creio que tivesse visto antes algum filme de Frank Tuttle, mas sei que ele foi um dos criadores do Directors Guild, Sindicato dos Diretores, e delatou Jules Dassin durante o macarthismo. Até pensei que Alma Torturada, o famoso This Gun for Hire, tivesse sido produzido no fim dos anos 1940, mas é do começo da década. O que me induziu ao erro foi justamente o discurso patriótico, quando o assassino de aluguel Raven é cooptado pela garota do policial a desmascarar o viláo, o industrial que está vendendo segredos industriais e militares ao inimigo. Em geral, o inimigo seria a antiga URSS, mas é o Japáo e eu deveria ter percebido que o filme faz parte do chamado esforço de guerra. O jovem Alan Ladd era um assombro, mais de uma década antes de estrelar o clássico Shane, Os Brutos também Amam Amam, de George Stevens, e Veronica Lake é um encanto na pele da mulher com quem ele tem um romance puramente platonico e a quem conta a história das violencias que sofreu na infancia, daí a alma torturada do título brasileiro. O portugues é Aluga-se esta Arma, ou coisa que o valha. Um dos aspectos mais interessantes do filme, revisto hoje, é a abordagem da homossexualidade no personagem de Laird Cregar, que contrata Raven para o assassinato que abre o filme e depois o trai. Cregar mora numa mansao, adora musicais e tem um mordomo faz-tudo. É covarde e, numa cena, diz ao mordomo que nao o deixe sozinho. O cara responde que vai ficar pegando na sua mão até relaxar. e quando Cregar atrai a garota à sua casa – para matar, mas ele náo pode ver sangue – o mordomo acende as velas de candelabros de hastes retorcidas, bem barrocos, como aqueles na casa de Michael Douglas no Liberace de Steven Soderbergh. Sobre o platonismo da relacáo Ladd/Veronica, vale lembrar que, em Shane, o pistoleiro mítico provoca alguma coisa na mãe de Joey, mas também ficam só nisso, na cena do baile, quando Jean Arthur coloca o velho vestido de casamento. O ciclo Los Angeles por Ela Mesma prosseguiu ontem na Cinemateca Capitólio com Sunset Boulevard, o clássico Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, que adorei rever na tela grande. Norma Desmond, eterna, está pronta para o close, Mr. De Mille. Puta filme. À noite, fomos rever, Doris e eu – ela via pela primeira vez -, Star Wars – Os Últimos Jedi. De novo a homossexualidade – Poe/Oscar Isaac é ou náo é? Havia encontrado um texto na rede em que o ator negava que o personagem fosse gay, e até comentei com o Heitor, filho do Dib, que não entendia de onde vinha isso, acrescentando que minha única decepção com o filme havia sido aquela janela, no final, para o romance de Finn com a jovem oriental. Desde o filme anterior, eu imaginava que a série ia investir numa ligaçao interracial, e Rey e ele ficariam juntos. Achei que seria revolucionário, e o Heitor, de certo me achando um velhinho sem nocao, me disse que revolucionário seria Finn e Poe ficarem juntos, mas que isso não ia ocorrer. Perguntei de onde ele tirara essa ideia da homossexualidade dos heróis, e o Heitor e a namorada dele, a Keithy, me explicaram que, no filme anterior, Poe deu sua jaqueta para Finn e que, nas universidades norte-americanas, isso é código entre casais, que o filme de JJ Abrams estaria transformando em código entre pares gays. Vivendo e aprendendo… Queria tanto um final de Rey e Finn. Vejamos o que nos vão dar os roteiristas, mas será preciso esperar pelo final de 2019. No final deste ano, teremos o spin-off de Ron Howard sobre o início da amizade de Han Solo e Chewbacca na Falcon. Mal posso esperar.