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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2009 | 10h13

Já contei que, em Berlim, após a premiação, tivemos nosso jantar de despedida, Alessandro Giannini, Orlando Margarido e eu. Não me lembro mais em que circunstância, ou em que momento da conversa, mas Orlando falou lá pelas tantas em diferença geracional, e disse que Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, Inácio, nosso ‘concorrente’ Inácio Araújo (da ‘Folha’) e, claro, eu que estava na mesa com eles, somos de uma geração em que a França, e o francês – a própria língua –, eram referências muito fortes. Hoje, a garotada, até via internet, está mais americanizada, falando de maneira geral, e não vai nisso nenhum juízo de valor. O juízo vai entrar agora. Em Paris, estava louco para ver ‘The Little Fugitive’, que acaba de sair numa cópia nova, dublado em francês, como ‘Le Petit Fugitif’. Cheguei no domingo, e queria ver o filme imediatamente, mas terminei indo ao Action Christine para ver dois dos 100 Mais Belos filmes do Mundo. (Vi outros dois, mas aí os cinemas foram outros, o Action Écoles e o Reflets Médicis). Nunca tinha visto ‘Uma Rua Chamada Pecado’ na tela grande e não resisti. Depois de ‘Santiago’, de João Moreira Salles, também não resisti e emendei Kazan com ‘A Roda da Fortuna’ (The Band Wagon), de Vincente Minnelli, o filme preferido do mordomo da família Salles. E corri para ver o western ‘Johnny Guitar’, de Nicholas Ray, que Truffaut – onde mesmo? – diz que é muito mais do que um filme sobre cavalos. Toda essa programação oferece pequenos textos mimeografados, bem artesanais, que me fizeram voltar à conversa de Berlim. Sobre Minnelli, Bertrand Tavernier e Jean-Paul (não Jean-Pierre) Coursodon, na ‘História do Cinema Norte-Americano’, observam que ele costuma ser considerado um diretor superficial, mas essa é a típica observação que revela a superficialidade de quem a faz. Tavernier e Coursodon escrevem um belo texto sobre Minnelli como o sonhador que, insatisfeito com o mundo concreto, o recria em musicais, comédias e melodramas da forma como acha que deveria ser. O texto é maravilhoso e a concepção muito européia, tipicamente francesa, nada pragmática, à americana. Jean Douchet, que hoje anima um cineclube e escreve sobre DVD em ‘Cahiers’, redige outro texto magnífico sobre Nicholas Ray como poeta maldito, o Rimbaud de Hollywood. Sua descrição das cores de ‘Johnny Guitar’ e de cenas como a de Joan Crawford, de vestido branco, ao piano, no saloon, me despertaram o desejo urgente de rever o filme. Não creio que os atuais críticos de ‘Cahiers’, ou de ‘Positif’, sejam tão bons, mas o francês, como língua, tem uma musicalidade que ainda me atrai muito mais. Nunca fui muito sensível à crítica norte-americana, ou anglo-saxônica. Andrew Sarris nunca me disse muito. Em compensação, Robin Wood foi decisivo para a minha apreciação sobre Alfred Hitchcock, Claude Chabrol e Arthur Penn e os livros de Peter Bogdanovich sobre John Ford e Fritz Lang são verdadeiras bíblias que recomendo a todo cinéfilo que se preze.

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