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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2010 | 11h02

Confesso que minha vida, nos últimos dias, tem sido uma festa sem fim. Muitos (re)encontros com amigos, jantares, vinho, muito vinho. Amanhã, vou para Porto Alegre – quer dizer, espero ir, aproveitando minha folga de Natal, mas a greve anunciada dos aeroviários promete f… com a vida das gente nos aeroportos. Nessa roda-viva, tenho negligenciado o blog. Sorry. Há dias ando com vontade de postar alguma coisa sobre Franco Rossi. Franco quem? Esse diretor italiano assina a mini (ou micro) série ‘Jesus Menino’, que começou segunda-feira na Rede Brasil, com Irene Papas e Alessandro Gassman, filho de Vittorio. Franco Rosi – nada a ver com Francesco Rosi – irrompeu no cinema italiano na segunda metade dos anos 1950, com filmes que se tornaram clássicos do cinema sobre a infância. Tenho relembrado, nas últimas semanas, ou na última semana, os grandes filmes sobre a infância de Luigi Comencini, ‘L’Incompresso’, tão bonito, mas poderia ser também ‘Lo Scopone Scientifico’, Semeando a Ilusão, em que que a crueldade do mundo adulto (Bette Davis, Alberto Sordi e Silvana Mangano) era filtrada pelo olhar infantil. Era muito garoto quando assisti, lembro que no antigo Cine Colombo, na Av. Cristóvão Colombo (em Porto), ao filme ‘Amigos do Peito’. A produção é de 1955, mas deve ter estreado no Brasil um ano ou dois depois. Era tão bonito. Dois amigos, garotos, Geronimo Meyner e Andrea Sciré, um rico outro pobre. São almas gêmeas, amigos do peito, mas depois as próprias contingências sociais os separam. Devia ter o quê, 10 ou 11 anos, quando vi o filme, mas durante muito tempo o carreguei comigo. Franco Rossi virou especialista em filmes de episódios, uma praga do cinema italiano nos anos 1960, e naquela mesma década ele veio ao Brasil para fazer ‘Uma Rosa para Todos’, com Claudia Cardinale. Bem antes disso, e logo depois de ‘Amigos’, fez ‘A Morte de Um Amigo’, de novo a infância, e ‘Smog’, com Annie Girardot, de quem eu estava apaixonado, após assistir a ‘Rocco e Seus Irmãos’. Só bem mais tarde descobri que ‘Amigos do Peito’ era um dos filmes cults de Pauline Kael e a crítica norte-americana nunca se conformou com o fato de que, nos EUA, pelo menos, ‘Amici per la Pelle’ tenha virado referência para plateias de gays. Isso, há 50 anos, condenava o filme de Rossi a ficar circunscrito a uma espécie de gueto e talvez por isso não seja uma obra tão conhecida. Pergunto-me se o subtexto seria mesmo gay, ou se um eventual reconhecimento maior para o filme teria mudado a trajetória do diretor. A ideia da perda, de que os dois amigos carregariam pela vida as respectivas ausências, era muito forte, mas que eu me lembre não havia nenhuma sugestão mais explícita de homossexualismo entre os meninos, ou que tenha me marcado. Disse que Franco Rossi não tinha nada a ver com Francesco Rosi, mas isso talvez não seja totalmente verdadeiro porque, em 1952, ambos co-dirigiram, com Goffredo Alessandrini, ‘Camicie Rossi’. Na TV italiana – na RAI, pré-Berlusconi –, ele adaptou Homero e Henry Sienkiewicz, mas o seu ‘Quo Vadis?’ foi desmontado pela crítica, que não salvaguardou nem o imperador romano de Klaus Maria Brandauer. Na versão da Metro, de 1951, Mervyn LeRoy substituiu John Huston e Anthony Mann dirigiu as cenas do incêndio de Roma. Acreditam que nunca vi o filme? Só conheço de ouvir falar a alegada interpretação antológica de Peter Ustinov como Nero. Para variar, estou misturando as bolas e o post ameaça virar sobre outra coisa.

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