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Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2008 | 09h52

PORTO ALEGRE – O calor está infernal e eu ontem suei em bicas como há muito tempo não me ocorria, mas acho que é melhor assim do que as imagens da chuva em São Paulo, que vi zapeando na TV. Ontem, foi meu dia particular França/Brasil. Ao mesmo tempo que via as imagens do patético Sarkozy e de sua deslumbrante Carla, que além de Bruni é Tedeschi – prima da atriz e diretora, aliás talentosíssima, Valeria Bruni-Tedeschi – no Rio, eu fazia meu périplo particular, entrevistando, pelo telefone, dois velhos conhecidos, os diretores Arnaud Desplechin e Patrice Leconte. Digo ‘velhos conhecidos’ como piada, uma boutade, mas é verdade que há anos venho falandfo com esses dois pelo telefone. Foram papos muito interessantes que você poderá começar a ler amanhã no ‘Caderno 2’. Ambos os diretores franceses estréiam filmes na quinta, dia do Natal. O de Desplechin, meu favorito, chama-se justamente ‘Um Conto de Natal’ e trata de uma família que se reúne para as festas de fim de ano. A matriarca (Catherine Deneuve) que precisa de um transplante, mas o único doador compatível é o ‘mauvais fils’, o filho ruim, interpretado pelo ator-fetiche do diretor, Mathieu Amalric, que também é o vilão de ‘007 – Quantum of Solace’. Desplechin é gente finíssima e me contou como a origem de seu filme foi um texto do filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson que lhe causou grande perturbação. No texto, o próprio Emerson supera e melancolia e busca um sentimento positivo para a vida ao ter de enterrar seu filho. Desplechin admite que, embora o filósofo tenha sido seu farol, ele também estava muito impressionado com o último filme de Ingmar Bergman e alguma coisa de ‘Sarabanda’ passou para ‘Um Conto de Natal’. Disse-lhe que, na seqüência, ia entrevistar Leconte e me surpreendi quando Desplechin, queridinho de ‘Cahiers du Cinéma’ – e ícone do cinema de autor na França -, me disse ter grande estima pelo realizador de ‘Félix e Lola’, respeitando sua opção pelo cinema comercial e admirando a habilidade como ele alterna filmes de um recorte mais ‘intimista’ com comédias de sucesso como as da série ‘Bronzés’, cujo terceiro exemplar fez mais de 10 milhões de espectadores na França. O próprio Leconte surpreendeu-se de que ‘Félix e Lola’, um filme de 2001, esteja estreando somente agora no Brasil. Ele fez vários depois e preferiria que os brasileiros fossem ver outros trabalhos que prefere, mas não ‘Bronzés 3′, que não considera um produto de exportação. “É um humor muito francês, muito regional, que acredito que não teria chance num país como o Brasil’, ele disse. Para completrar o dia, entrevistei o animador brasileiro Renato dos Anjos, do filme ‘Bolt’, que amei. Foi um dia movimentadíssimo e eu tive de redigir todos esses textos (e outros), o que explica por que não me sobrou muito tempoo para o blog. Agora, vou correndo ao cinema para ver ‘Marley & Eu’. Vocês já viram? Leram o best seller de John Grogan? Não quero ser pré-conceituoso, mas em matéria de cão, duvido que Marley seja melhor do que Bolt.