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Fotos que esculpem a lenda

Luiz Carlos Merten

25 Maio 2008 | 05h16

CANNES – Bom-dia! É cedo, 9h30 aqui na França, cinco horas menos (madrugada, ainda) no Brasil. Cannes amanheceu chuvosa e eu me pergunto se a chuva vai continuar o dia inteiro. Neste caso, poderá prejudicar a exibição de ‘O Mistério do Samba’, documentário de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda, um projeto idealizado por Marisa Monte para celebrar a ‘Academia’ – a Velha Guarda – da Portela. ‘O Mistério’ está apontado para passar hoje à noite, ao ar livre, encerrando a mostra ‘Cinéma de La Plage’, que exibiu, entre outros filmes, ‘Dirty Harry’, de Don Siegel, em presença de Clint Eastwood, e ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, com aquela fotografia genial em preto-e-branco de Joseph Biroc, o fotógrafo preferido do grande Robert Aldrich. Imagino que, ao escolher o documentário brasileiro para a clotûre, a organização do festival imaginava terminar Cannes em apoteose, em ritmo de samba. A chuva poderá estragar o esperado, vamos ver. Mas a praia, ao longo da Croisette, o grande calçadão de Cannes, faz parte da ‘légende’ – a lenda – do festival. Por todo lugar, existem aqui o que eles chamam de ‘photos de légende’, registrando a memória do evento. Adoro, particularmente, uma que mostra Luchino Visconti, Claudia Cardinale e Burt Lancaster passeando com seu leopardo, justamente quando ‘Il Gattopardo’ recebeu a Palma de Ouro, em 1963. Mas a minha preferida é dos anos 50. Não sei se vocês podem encontrá-la no site do festival – www.festival-cannes.fr (ou org). Mostra a jovem Brigitte Bardot, uma ‘gamine’, fugindo de um bando de fotógrafos que correm atrás dela. O que faz, para mim, a beleza da foto é o menino que corre ao lado de Brigitte, olhando para ela com verdadeira devoção. Ele devia ter, sei lá, uns dez anos. Pode muito bem estar vivo, 50 anos depois. Fotos antigas sempre mexem comigo. O que pensava aquele garoto, na época? O que houve com ele? E o olhar… Transmite o quê? Desejo? Um futuro `ladie`s man`? Gosto de imaginar que aquele garoto estava realizando o sonho de milhares de outros, ao redor do mundo, entre os quais me incluía, em Porto Alegre, mesmo que, naquela época, nem soubesse da existência de Cannes e, menos ainda, que viria com tanta freqüência a este festival. Desde 1991, só deixei de vir duas vezes, o que já me rendeu a credencial branca e até uma homenagem, que chique!, uma medalha que me foi conferida em… quando? Sei lá, dois-três anos atrás. Chega de conversa fiada. O dia hoje vai ser corrido, Tenho entrevistas apontadas com Laurent e seu ator, e até com Nuri Bilge Ceylan, mas eu não sei se poderei honrar o compromisso porque será na mesma hora de ‘Gomorra’ e eu ainda não vi o filme italiano de Matteo Garrone que concorre à Palma de Ouro. Há pouco, uma equipe da TV turca me entrevistou para saber qual era a minha aposta. Na verdade, o que eles queriam saber era o que tinha achado de ‘Three Monkeys’, Gostei, menos do que ‘Climats’, é verdade, mas se fosse para torcer por filmes de outras nacionalidades não seria por Ceylan e sim, por ‘Entre les Murs’, que daria uma boa Palma consensual, ou ’24 City’ (de Jia Zhang-ke), ou ‘Two Lovers’ (James Gray). Não vai ser só o ‘nacionalismo’ que vai me fazer torcer por ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas. Walter diz que é um filme ‘pequeno’. É muito melhor do que certos filmes ‘grandes’ que ele fez…