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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2008 | 15h45

Fui a Minas, no fim de semana, e não tive tempo de acrescentar um post sequer. Embarquei no sábado pela manhã para Belo Horizonte e dali fui diretamente para Ouro Preto, onde participei ontem pela manhã, com meu colega Jotabê Medeiros e com Jerônimo Teixeira, da ‘Veja’, de um encontro para debater jornalismo cultural com estudantes de comunicação. Esse encontro ocorreu no quadro do Fórum das Letras. Adorei e aproveitei o sábado à tarde para correr, com minha filha Lúcia, para Congonhas do Campo, para visitar com ela a igreja de Bom Jesus de (ou do?) Matosinhos, cujo átrio exibe as criações geniais de Aleijadinho. Aliás, Minas – e Ouro Preto – estão em polvorosa por causa do livro de Guiomar de Grammont que coloca em xeque justamente a autoria da produção cultural do Aleijadinho. Guiomar não quer destruir o mito, mas restabelecer uma verdade historica. Suas pesquisas a convenceram de que o escultou não poderia ter feito toda aquela obra, mas ela apresenta uma unidade e esse fenômeno da autoria, levado ao pé da letra, talvez desautorizasse grandes clássicos europeus do Renascimento que tinham ateliês e terminavam assinando as melhores obras que os discípulos realizavam sob seu olhar (e orientação). O Fórum das Letras é criação de Guiomar, com quem almoçamos ontem, Jota e eu. A volta foi meio caótica – chegamos em cima da hora no aeroporto de BH e eu lamentei não ter levado o telefone do Carlos Quintão para pelo menos ligar (de um orelhão, claro) e dizer um alô. Lúcia ficou doente, pegou uma infecção de garganta e, quando chegamos em Congonhas – agora o aeroporto de São Paulo –, dez e tanto da noite, nos deparamos com aquela fila quiométrica atrás de táxi. Foi duro, mas, se me convidarem, lá vou eu de novo. Adoro esses contatos com jovens, que muitas vezes me pedem orientações de leituras e sei-lá-o-que-mais, como processo de formação para virarem críticos de cinema. Acho que a pedra de toque dessa catedral é a paixão pelo cinema, embora a formação seja fundamental e não seja simplesmente a leitura de livros básicos sobre teoria do cinema (Eisenstein, André Bazin, o livro de entrevista de Truffaut com Hitchcock etc), mas sobre cultura em geral, porque crítico tem de ter bagagem (cinema, literatura, música, artes visuais e cênicas etc). Outra coisa que sempre me perguntam é sobre ops limiters entre erudito e popular, entre o grande cinema de autor e o cinemão, entre Bergman, Fellini, Antonioni e Tarkovski, e Georges Lucas e sua série ‘Star Wars’. Sinceramente, posso até ser pop (ou pós-moderno) demais, mas não creio muito nessa divisão. Eu próprio vejo e gosto de autores e filmes de ambas as vertentes e há muito tempo que a academia aplica fundamentos de filosofia e lingüistica a Harry Potter e Matrix. Aliás, quem não acredita nessa contaminação do etudito pelo popular, e vice-versa, e prefere continuar encastelado na torre de marfim das suas concepções puristas, há muioto perdeu o bonde da história e só está perdendo. “Ratatouille’ foi o melhor filme do ano passado – Proust reencontrado –, o Batman de Cjhristopher Nolan está sendo o melhor, ou um dos melhores deste ano e eu vou dizer o quê para não tem olhos para ver isso? Que se ligue? Que tente entender o pop, que às vezes é mais sofisticado e complexo do que o erudito? Dito assim, parece que a formação de um jovem crítico é complicada demais, mas não é e, a tudo isso, ainda é preciso acrescentar as ferramentas próprias da função jornalística. Ninguém chega a ser crítico, e menos ainda de jornal, sem escrever de forma clara e direta. De posse da teoria do cinema e da prática da escrita, tenho a impressão de que é só se soltar. Ninguém tem de escrever segundo os fundamentos deste ou daquele crítico, aliás não deve e o ideal é que cada um formule a ‘sua’ teoria ou pelo menos a sua maneira de ver/encarar o cinema e de posse dessa ferramenta abra os olhos – seus e do leitor – para o que está vendo. Não creio que o crítico seja um educador e muito menos que o que escreve deva ser levado como verdade absoluta. Mas se eu poder contaminar quem me lê pela paixão do cinema, acho que ficarei feliz, mesmo que a partir daí a gente não concorde em mais nada.

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