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‘Fort Saganne’

Luiz Carlos Merten

20 Setembro 2011 | 21h00

Confesso que gostava dos policiais de Alain Corneau. ‘Calibre Python 357’, ‘Encurralado para Morrer’, ‘Série Noir’. E, então, em meados dos anos 1980 veio a virada, com ‘Fort Saganne’. Corneau, considerado o mais clássico cineasta de sua geração, trocou a cidade pelo deserto – e pelo passado colonial francês. Gérard Depardieu, Catherine Deneuve, Philippe Noiret, Sophie Marceau, imagens deslumbrantes, a trilha idem e a história calcada nas velhas aventuras da Legião Estrangeira, com ecos de ‘Beau Geste’. Depardieu combate tribos nômades no Saara. Saudades de ‘Lawrence da Arábia’ e de Alec Guinness, dizendo a seus ‘filhos’ Peter O’Toole e Omar Sharif que eles devem sair de cena porque começa a política profissional e, com ela, a podridão. É um  pouco a trajetória do tenente Saganne e das duas mulheres de sua vida, a jovem Sophie Marceau e a mais madura Deneuve, na França de 1910/11. Na sequência, Corneau inspirtou-se em Antonio Tabucchi para ‘Noturno Indiano’, a trilha de Schubert e a história do francês que busca, na Índia, um amigo desaparecido e encontra o conhecimento (e o sentido da vida). No começo dos anos 1990, Corneau chega, enfim, ao ápice com ‘Todas as Manhãs do Mundo’. Jean-Pierre Marielle é extraordinário como o senhor de Saint-Colombe, que, no século 17, levou a viola de gamba à perfeição, mas o filme não é sobre a arte da música. A grande, a verdadeira arte para Corneau, em ‘Todas as Manhãs’ como em ‘Noturno Indiano’, é sempre o ser humano. O que buscam os personagens do autor? A transcendência. O que busca, ele próprio? A superação, como homem e artista? Corneau dá a impressão de desconfiar dessa superação, porque o que lhe interessa é o homem com seus limites. Depardieu e Marielle vivem experiências diversas, mas a dádiva da manhã que buscam é rigorosamente a mesma – a vida. Nunca consegui assistir ao remake de ‘Le Deuxième Souffle’, Os Profissionais do Crime. Corneau, que foi considerado o herdeiro, o sucessor de Jean-Pierre Melville no filme noir, refez um dos maiores filmes do mestre. A repercussão não foi aquela com que ele sonhava, nem de público nem de crítica. Corneau morreu em agosto do ano passado, aos 67 anos. E, agora, a Signature Pictures resgata ‘Fort Saganne’ em DVD. Outro filme com a bela Deneuve, como ‘A Chamada do Amor’, La Chamade. Estou adorando esses reencontros com autores, e filmes, que pareciam distantes – perdidos? – no meu imaginário.

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