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Fora de série

Luiz Carlos Merten

07 Junho 2014 | 10h29

Vocês, que me acompanham, não importa quantos sejam, sabem do meu sentimento ambivalente por François Truffaut. Os ‘meus’ Truffauts, vou colocar no plural, são dois – O Garoto Selvagem, primeiríssimo, e Jules e Jim/Uma Mulher para Dois. Mas gosto, circunstancialmente, de outros filmes do diretor, ou de partes deles – Os Incompreendidos, Beijos Proibidos – e que, az se fiar na canção de Charles Trenet, deveria ser Beijos Roubados -, A História de Adèle H, L’Argent de Poche  O Quarto Verde e A Noite Americasna. Sou capaz de duvidar que A Noiva Estava de Preto seja, realmente, um grande filme, ou mesmo bom, mas confesso que tenho um prazer imenso ao vê-lo. Agora nem tanto, mas houve época em que o filme passava a toda hora na TV paga. Eu parava imediatamente, à espera de que Jeanne Moreau, no desfecho, se fizesse prender para matar, na cadeia, o último responsável pelo assassinato de seu sonho. E sempre adorei que a personagem se chamasse Julie Kohler, que se pronuncia Kolér, e em francês o som é muito parecido, senão o mesmo, de colère, colère. Curioso é que, embora Truffaut tenha emulado seus mestres – Alfred Hitchcock, Roberto Rossellini e Jean Renoir -, A Noiva, para mim, é seu filme ‘aldrichiano’, sim, de Robert Aldrich. Meu sentimento ambivalente por Truffaut ultrapassa os filmes, mesmo que reconheça que, no limite, só esses devessem me servir de guias. Mas fiz entrevistas demais com pessoas ligadas a Truffaut e ouvi muitas versões sobre ele, li outras tantas. Ele fez o que tinha de fazer para se firmar e firmar o movimento do qual foi o arauto, a nouvelle vague, mas colheu a ‘cólera’ de ex-companheiros ao ser transformar na unanimidade (presque) do grupo. Aparentemente, nunca regretou – uma licença poética: lamentou – as reputações que destruiu, porque ele não atacava só os filmes da geração precedente. Atacava as pessoas. Tudo isso é para dizer que este ano se completam 30 anos da morte de Truffaut (em 21 de outubro) e, aproveitando a data redonda, Le Monde lançou uma revista Hors-Série que comprei no aeroporto de Paris. François Truffaut – Le Roman du Cinéma. Une vie, une oeuvre. Devorei-a de ponta a ponta. O portrait inicial, por Jean-Luc Douin, de alguma forma me fez ver Truffaut por um outro ângulo, mais sereno, menos passional. Textos escolhidos dão a palavra ao próprio Truffaut para que fale de sua moral de cineasta, do amor, dos personagens frágeis, do cinema que lhe permitia realizar os sonhos (e ainda ser pago por isso), de Hitchcock, Charles Chaplin e Renoir. Tudo isso e mais as entrevistas e os depoimentos. Serge Toubiana, seu biógrafo, conta como Truffaut era misterioso – intimidant, secret et obsessionalel -; Jean-Luc Godard o acusa de ser haver conduzido como um merda; Steven Spielberg, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Suzanne Schiffman, Marie Dubois, Arnaud Desplechin e Gilles Jacob, entre muitos outros, dissecam o Truffaut que conheceram (e amam). Só sei que terminei a leitura pensando que gostaria de me render, incondicionalmente, ao culto. Depois pensei, para ficar em paz comigo, que é um livro chapa-branca (exceto pelas diatribes de M. Godard e um texto duro de Pauline Kael, dizendo que Truffaut se anulara, virara um diretor inexistente). A morte sempre – ou quase sempre – nos leva a querer ficar em paz com que se vão, até como forma de ficarmos em paz conosco.