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Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2010 | 10h13

BRASÍLIA – Conheço Tiago Mata Machado de um evento que cobrimos, cada um para seu jornal. Achei-o super talentoso e ele não me decepcionou com seu longa de estreia. Devo ter fechado os olhos durante algum momento na projeção, porque me bombardearam com as indefectíveis perguntas de ‘Dormiu? Gostou? Não gostou?’ Gostei! Antes da projeção, Tiago subiu ao palco com sua equipe. O mineirinho é metido a besta (uso a expressão de forma carinhosa, embora não pareça). Usava uma calça chiquérrima, as coleguinhas diziam que era modelito francês, mas ele é tímido. O público pedia que fosse para a área iluminada do palco, mas Tiago insistiu em permanecer na sombria, o que, talvez, já fosse metafórico. O mais bacana é que o filme dele dialoga muito bem com o de Eryk Rocha, exibido na noite anterior. ‘Transeunte’ é sobre esse andarilho solitário quedescortina para a gente a cidade grande. ‘Os Residentes’ é sobre um coletivo. Passa-se em boa parte dentro de uma casa, mas sai para a rua e termina com o grupo que põe seu bloco na rua ou com o casal na estrada, seguindo em frente, sempre em frente. No filme de Eryk, há um prédio em construção. No de ‘Os Residentes’, a casa é demolida no desfecho. Um constrói, o outro destrói (a ordem burguesa?) ‘Os Residentes’ caiu feito uma bomba no festival. A cereja desse bolo transgressor foi a cena em que um dos protagonistas masculinos corta o bigode e, em contrapartida, usa a mesma tesourinha para cortar os pelos pubianos da mulher, com os quais é feito o bigode que ela passa a usar. Isso remete à obra de um pintor célebre – remember ‘A Arte do Crime’, de John McTiernan – e é certamente divertido, mas o verdadeiro diálogo de Tiago Mata é com Godard e João Carlos Belmonte, o que talvez surpreenda o próprio diretor, porque num breve encontro agora pela manhã Tiago já me citou Jean Eustache (‘La Mamain et la Putain’) e um John Cassavetes menor (‘Minnie & Moskowitz’) como fontes de referência. Godard, eu sei que ele ama e o filme começa como ‘Les Carabiniers’, Tempo de Guerra, virando depois ‘A Concepção’, ou o que deveria ter sido o filme de Belmonte (o único de que não gosto do diretor). Achei muito mais interessante a forma como Tiago Mata filma o ‘coletivo’, uma obsessão nas artes cênicas e audiovisuais da nova geração, ou das novas gerações nacionais. Já tinha pensado muito na questão do roteiro, a partir do filme de Eryk Rocha, ‘Transeunte’. Não quero, de maneira nenhuma, desacreditar roteiristas que admiro – Bráulio Mantovani, Marçal Aquino, Paulo Halm etc -, mas creio, como Kubrick, que o cinema é a arte da montagem. Acho mais fácil me convencerem de que é possível fazer um filme sem roteiro do que sem montagem, embora Hollywood, que aposta no cinema narrativo, na ‘história’, queira fazer crer que não, mas não é isso que quero discutir. ‘Transeunte’ é uma ficção construída nos limites do documentário. O personagem anda sem parar, e o filme incorpora o mundo que ele vê. Como, ou de que forma, um roteiro dá conta dessa observação? A grande cena de ‘Os Residentes’ é a que precede as intimidades do casal, mas é com o mesmo casal. Ele fica de costas para ela, em primeiro plano. Ela reclama como pode conversar com ele, dessa maneira? Ele retruca, conversar o quê? A construção desse diálogo – o filme de Tiago Mata é muito falado, ao contrário do de Eryk Rocha, que prescinde dos diálogos – é uma coisa maravilhosa, mas os personagens parecem hesitar. A palavra não flui, é truncada, embora jorre, aos borbotões. Fiquei pensando – isso é tudo escrito? Qual o grau de improvisação? Por que, se os atores estão seguindo o texto, eles são ainda melhores do que pensei. ‘Os Residentes’ não é fácil. Tem o plano deslumbrante do caminhão que suga a terra. É filme de dar nó na cabeça. Ou então é só um experimento lúdico, como disse o produtor no palco. O ‘autor’ não tentou explicar, antecipadamente, seu filme. Não apresentou nem a equipe – afinal, é um ‘coletivo’. ‘Os Residentes’ desconcerta e, num festival como Brasília, isso é o que minimamente todo filme tem de fazer.