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Luiz Carlos Merten

14 Março 2011 | 15h27

Gabriel Villela, um dos maiores diretores de atores do teatro brasileiro, para não dizer o maior, já me confessou que não consegue desgrudar o olho de Kate Winslet em ‘O Leitor’, de Stephen Daldry, pelo qual a ex-mulher de Sam Mendes ganhou o Oscar. Eu a acho magnífica no papel, e tanto que consigo passar, olimpicamente, sobre aquela maquiagem desastrosa de envelhecimento. Cheguei até a tecer alguma justificativa para o fato de ela (a tal maquiagem) ser tão fake, não lembro mais qual foi. Mas a ‘minha’ Kate Winslet, por mais que goste de ‘Pecados Íntimos’, de Todd Field, é a de ‘Foi Apenas Um Sonho’. Revi ontem o filme de Sam Mendes adaptado de Richard Yates, no qual Kate forma dupla com Leonardo Di Caprio, dez anos depois de ‘Titanic’, de James Cameron. Fui uma voz dissonante no coro de elogios a ‘Beleza Roubada’, pelo qual o próprio Mendes ganhou seu Oscar. Era o ano de ‘O Informante’ e eu acho que Michael Mann foi um dos grandes injustiçados da história da Academia de Hollywood. Mas depois comecei a gostar de Mendes e do seu tema das relações entre pais e filhos, como ele o trata (ou desenvolve). ‘Foi Apenas Um Sonho’, Revolutionnary Road, por exemplo, narra a história de um casal  nos anos 1950, mas o que define o comportamento da dupla, ou o que acontece à dupla, é determinado pela relação do marido com a memória do pai. Poucos filmes são tão críticos na dissecação do sonho americano e, menos ainda, são tão duros na abordagem do ‘casal’. Todos os casais do filme são desgraçados, miseráveis e a síntese dessa miséria é o gesto do marido de Kathy Bates, preso a ela por causa do filho perturbado – por excesso de lucidez -e que simplesmente baixa a zero o volume do seu aparelho de surdez para não ter de ouvir o desfiar de amarguras e ressentimentos da mulher. Leonardo DiCaprio é bom, mas não sei se vocês têm a mesma sensação que eu. O tempo passa, ele já perdeu o frescor, o corpo é de homem que já vai perdendo a forma (a cena da praia), mas a cara continua de bebê e isso, para mim, é um problema. DiCaprio jamais vai ter um daqueles rostos esculpidos na pedra dos astros de antigamente. Em compensação, Kate é o enigma do outro mundo. Poucas atrizes conseguem, como ela, tudo expressar e quase sempre com economia de meios. Não me lembro qiual crítico, mas ele matou a charada ao dizer que a interpretação de Kate não tem um momerntgo de banalidade. Nenhum gesto, nenhuma palavra. Uma das coisas que me consolam no Oscar, entre tantas injustiças, é o fato de que uma atriz como Kate pode ter sido preterida, mas já obteve reconhecimento, e rapidamente.