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Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2009 | 14h07

PARIS – Revi ontem antes de sair de Liboa ‘Revolutionary Road’, de Sam Mendes, que no Brasil estreou também ontem, com o título de ‘Foi Apenas Um Sonho’. Havia visto o filme aqui em Paris, durante a semana dos encontros do cinema francês, para dizer a verdade, no mesmo dia – logo depois – em que havia visto ‘Slumdog Millionaire’, de Danny Boyle. Talvez tenha ficado impressionado com a urgência de ‘Quem Quer Ser Um Milionário’. Até escrevi no texto que saiu ontem no ‘Caderno 2’ que o romance de Richard Yates em que Mendes se baseou tinha uma dimensão social mais forte. O diretor me parecera mais preocupado pelo romantismo da história. Engraçado, mas ontem tive uma outra percepção de ‘Revolutionary Road’. O título refere-se ao nome desse bairro em que Leonardo DiCaprio e Kate Wisnlet compraram uma casa, mas também tem a ver com o tipo de vida incorformista – revolucionária? – com que ambos sonham. No final, as coisas não saem exatamente como eles esperam – o título brasileiro não deixa margem a dúvida. Não havia gostado de ‘Beleza Americana’ – torcia, no Oscar daquele ano, por ‘O Informante’, de Michael Mann -, mas tenho acompanhado com interesse a carreira de Sam Mendes. Seus filmes psarecem cada vez menos interessantes para os outros, mas ‘Estrada para Perdição’, ‘Soldado Anônimo’ e, agora, ‘Foi Apenas Um Sonho’ reafirmam preocupações autorais que me fascinam. A vida do subúrbio, o choque geracional, a vontade de falar sobre pais e filhos. A guerra de ‘Soldado Anônimo’ é a de Bush pai, mas Mendes queria falar era sobre Bush filho. Em ‘Foi Apenas Um Sonho’, um dos personagens mais importantes não aparece – é o pai de DiCaprio, cujo conformismo o filho quer contestar nos EUA de 1955, mas não tem coragem e cede a tentação do sucesso e do dinheiro, mesmo que isso signifique destruir seu sonho e o de Kate. Achei um dos filmes mais duros e críticos que vi ultimamente sobre a ‘América’. Não existe saída do ‘sistema’, além do suicídio ou da loucura. E os personagens me pareceram muito bem desenhados. O louquinho com seu discurso coerente, o amigo louco de desejo por Kate e declarando-se na hora imprópria. Os homens estão sempre falando, a mulher – Kate – quer ação. Arrependo-me de ter dado regular como cotação para o filme no ‘Caderno 2’. É, no mínimo, bom. Descobri que ‘Revolutionary Road’ era o projeto que Todd Field queria fazer com Kate Winslet, mas que ele substituiu por ‘Little Children’, Pecados não-sei-o-quê?, Íntimos ou Inocentes (vocês já me corrigiram, mas esqueci), que também tratava do subúrbio. Kate permaneceu com o projeto e Sam Mendes, com quem é casada, desenvolveu-o para ela e DiCaprio, o primeiro desde que formaram o casal mítico de ‘Titanic’. Vou ter de voltar a ‘Foi Apenas Um Sonho’ e ‘Operação Valquiria’. Essas aqui são simples impressões iniciais.

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