Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Fogos de artifícios

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Outubro 2009 | 10h17

RIO – Assisti ontem a dois filmes brasileiros que, no limite, tratam de relacionamentos. Um homem, uma mulher, ambientes fechados, a arte. A mulher de ‘Natimorto’, de Paulo Machline, a poderosa Simone Spoladore, é cantora, mas sua voz causa, no mínimo, ‘estranhamento’ – palavra que foi usado pelo diretor do outro filme, Beto Brant, para explicar a sensação que teríamos – nós, o público – no começo de ‘A Paixão, segundo Schianberg’, prometendo que depois ela se dissiparia e o filme ficaria bacana. Estou esperando até agora que isso aconteça, mas devo ser a minoria da minoria, porque ‘Paixão’ teve, ao final, uma ovação extraordinária e o ‘Natimorto’, que recuperei à tarde, na sessão do público, não provocou nem de longe aquela euforia. Sem ofender ninguém, os dois filmes me lembraram o que dizia Paulo Francis. Comentando a fase de metalinguagem de Ingmar Bergman, nos anos 1960, o caro Francis dizia que Bergman havia lido inteiros os livros sobre novas teorias do cinema – e da arte – enquanto Godard havia ficado nas orelhas dos ditos livros. Foi mais ou menos a sensação que tive. Lourenço Mutarelli, que faz o protagonista – e é muito bom -, diz aqueles textos cheios de angústia com uma convicção dostoievskiana. ‘Os monstros somos nós’, ‘A doença não loucura, é humanidade’, coisas assim barras pesadas, mas intensas e nas quais se pode acreditar – eu acreditei. A garota, no filme de Beto, é videoartista. Numa cena, o sempre eficiente Gustavo Machado, que faz um ator, discute com ela técnicas de interpretação e como a parcreira não responde ele diz que não faz mal, diz que ela pode ser canastrona mesmo. A fala deve ter valido para o filme todo. A cena em que ambos discutem a relação é o ó de superficialidade e deve ter sido aplaudida pelo mesmo pessoal que achou profunda a transgressão de ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’, de Esmir Filho. Ambos os filmes, aliás, são ‘bonitos’, visuamente, mas nada que se compare à beleza do plano sequência em que Simone Spoladore sai do banheiro, envolta numa toalha, pede um cigarro a Mutarelli, ele vai até o fundo do quarto para atendê-la, acende o cigarro, cai a toalha e Simone fica nua. O coitado do Pedro Cardoso cortaria os pulsos, mas se não for o plano mais belo deste festival, está próximo de sê-lo. Já que a protagonista, ou co-protagonista, é videoartista, a impressão é que ela assume o filme do Beto lá pelas tantas. Estou velho. Não tenho mais paciência para tantos fogos de artifícios. Eles cabiam muito mais ontem, na praia de Copacabana, quando as pessoas choravam e comemoravam a escolha do Rio para sediar os jogos de 2016. Vou agora falar com Jon Blair, o diretor de ‘Dançando com o Diabo’. Mais tarde eu retorno.