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Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2012 | 22h19

BERLIM – Talvez tenha feito uma opcaoh errada, mas existe aqui uma categoria especial de filmes – os documentarios sobre grandes artistas, personalidades fundamentais do nosso tempo. Hoje, passaram em horarios coincidentes os filmes sobre o chines Ai Weiwei e o arquiteto italiano Pier-Luigi Nervi, pioneiro no uso decorativo de pecas preh-moldadas de concreto. Posso naoh ter concluido o curso de arquitetura, mas aquela foi e permanece ateh hoje uma contribuicaoh importante para a minha formacaoh. Optei pelo filme de Heinz Emigholz, Parabeton – PLN and Roman Concrete. e naoh posso dizer que tenha me arrependido, mas Orlando Margarido e Alessandro Gianini se apaixonaram pelo filme sobre Weiwei, que explica o artista pela obra e realca sua militancia por liberdade na China. Por falar em China, acabo de assistir a Flowers of the War, Flores da Guerra, o novo Yhang Yimou. Na coletiva de In the Land of Blood and Honey, Angelina Jolie disse que fez um filme para incomodar sobre a Guerra das Bosnia. Tudo o que ela queria era provocar mal-estar no publico com aquelas cenas de violencia contra as mulheres e atiradores que ficam bem posicionados, colhendo suas vitimas ao azar. O filme de Zhang Yimou vai por aih, mas seguindo uma via, digamos, mais estetizante. Flores da Guerra reconstitui a batalha de Nanking, quando 200 mil chineses morreram na carnificina promovida pelos ocupantes japoneses. Eh um pouco o Imperio do Sol de Zhang Yimou, mostrando como eh dificil sobreviver na guerra – e mais ainda, sem sujar as maos. Ateh o ator eh o mesmo de Steven Spielberg, Christian Bale, no papel de um maquiador de cadaveres que naoh leva, por assim dizer, uma vida muito correta. A guerra faz florescer o heroismo onde menos se espera. De cara, Zhang Yimou filma o heroismo de um soldado chines que se sacrifica para levar para o inferno o maior numero de japoneses. Eles foram os servios da 2.a Guerra. Estupros ( de criancas), todo tipo de violencia barbara. Como salvar um punhado de escolares? As meninas parecem presas faceis, mas Bale, que adota a batina de um falso padre e as prostitutas do bairro da luz vermelha de Nanking revelam-se os anjos salvadores da fragilidade e da inocencia. Apesar desse contra-heroismo, o filme, de uma beleza visual muito elaborada, levanta duvidas se Zhang Yimou naoh virou o cineasta do novo regime chines. Todos os recursos lhe saoh facilitados, os japoneses saoh demonizados – mas eles foram mesmo brutais em toda a Asia, na epoca da guerra – e o americano revela-se o heroi, numa reedicaoh meio extemporanea do Charlton Heston que tambem salvava a menina em 55 Dias de Pequim, de Nicholas Ray. O diretor exagera na grandiloquencia, nos efeitos plasticos, na duracaoh (2h25)  e cah entre nos – carregando no violino de Joshua Bell (o proprio virtuose) e criando cenas que vaoh alem dos limites do sentimentalismo, ele faz o Spielberg de Cavalo da Guerra parecer quase taoh ascetico quanto o Robert Bresson de Balthazar. Francamente, esse Zhang Yimou foi meio demais para mim.

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