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Cultura » Fleischer, para o Mauro

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Luiz Carlos Merten

10 Julho 2011 | 23h30

Meu amigo Mauro Brider me pede que fale um pouco de Richard Fleischer e acrescenta que o acha um diretor pouco valorizado. Nem tanto, Mauro. Quando Fleischer morreu, há cinco anos, podemos ter sido poucos no Brasil a pranteá-lo, mas na França ‘Cahiers’ e ‘Positif’ se irmanaram nos elogios ao filho de Max Fleischer, o criador de Betty Boop. Fleischer sempre achou irônico que Walt Disney, o grande rival de seu pai, o tenha contratado para fazer ’20  Mil Léguas Submarinas’. Na época, 1954, ele já havia dado a medida de seu talento numa série de pequenos filmes, thrillers principalmente, que até hoje ostentam a fama de ‘excitantes’. Mas foi o sucesso, de público e crítica, de ’20 Mil Léguas’, que catapultou o bom Fleischer à produção A e ele virou um nome de prestígio na Fox. Alguns de seus filmes na empresa são muito bons, como ‘O Escândalo do Século’, The Girl on the Red Velvet Swing, mas no geral os críticos lamentam que Fleischer tenha feito ‘Estranha Compulsão’ e ‘Tragédia num Espelho’, comparando essa fase aos filmes que John Huston também fez preso por contrato a Darryl Zanuck. Algo, de qualquer maneira, se passou em 1958, quando Fleischer, contratado pela Bryna, de Kirk Douglas, fez ‘Vikings, os Conquistadores’ (o filme foi distribuído pela United Artists). A frase pode ser de efeito, mas ‘Cahiers’ escreveu que Hollywood havia feito muitos filmes bárbaros sobre os civilizados e ‘Vikings’ era a exceção, um filme civilizado sobre os bárbaros. Fleischer, um autor de cinema? Com certeza, sim. Fazendo filmes de vários gêneros e condições de produção distintas, ele sempre teve um tema que o atraía mais que os outros e era justamente a investigação das mentes tortuosas, fosse o Capitão Nemo de Jules Verne, o bárbaro viking Kirk Douglas ou o estrangulador de Boston, Albert de Salvo, a quem ele dedicou um de seus mais belos filmes, ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’. Dividindo a tela em quadros e trabalhando a imagem no tempo e no espaço – uma incorporação de Alain Resnais -, Fleischer não apenas fez de De Salvo, interpretado por Tony Curtis, um de seus personagens mais torturados internamente como foi de uma virulência a toda prova ao mostrar como o policial burocrata, Henry Fonda, o pressiona até o limite em que sua psique se desintegra. ‘The Boston Strangler’ é um dos filmes mais fortes da segunda metade dos anos 1960, um período de muita contestação, mas o que impressiona é a coerência de Fleischer, que desdobra temas e personagens. O estrangulador é primo/irmão de Barrabás e de Che Guevara, o de Omar Sharif, que influenciou Steven Soderbergh muito mais do que o próprio diretor da nova versão estaria disposto a admitir. Para a crítica de ‘esquerda’, ‘Che’ é o calcanhar de Aquiles de Fleischer, o filme que todos amam odiar. Mas seria interessante ouvir o relato do cineasta, que sempre se queixou da forma como a Fox, assustada com sua versão – e dada a proximidade dos fatos -, remontou o material, destruindo o elaborado roteiro de Michael Wilson e conta a lenda que o próprio Wilson teria enfartado, morrendo de desgosto pelo que considerava o achincalhe do projeto de sua vida. Na carreira de Fleischer, predominam os bons e até os grandes filmes, mas ele era o primeiro a admitir que errara a mão e fizera muitos maus filmes, aceitando coisas das quais deveria ter fugido. Não creio que sejam tantos assim (os maus filmes) e me fascinam obras tão distintas quanto ‘No Mundo de 2020’, ‘Os Novos Centuriões’ e ‘A Morte do Chefão’, que ele fez no biênio 1972/73. O final de carreira foi disparatado e Fleischer saltou de uma ‘Incrível Sarah’ para ‘O Príncipe e o Pobre’ e um ‘Jazz Singer’ (Nasce Um Cantor) particularmente dispensável. Mas eu sempre gostei de dois filmes espinhosos dessa fase, ‘Ashanti’ e ‘Mandingo’, ambos irmanados na temática da bruxaria e da escravidão. Fleischer tinha um carinho especial por ‘Mandingo’, que a Fox, sempre ela, alarmada pela franqueza das relações sexuais entre a casa grande e a senzala, massacrou com a mesma impunidade de ‘Che’. Não sei se um dia veremos a versão de Fleischer de ’Mandingo’, mas ‘Um Sábado Violento’, que antecipa ‘Caçada Humana’, de Arthur Penn; ‘20 Mil Léguas’, ‘O Escândalo do Século’, ‘Vikings’, ‘Barrabás’, ‘O Homem Que Odiava as Mulheres’, ‘No Mundo de 2020’ e ‘Os Novos Centuriões’ bastam, pelo menos para mim, para  dar a medida do grande talento de Richard Fleischer. Ele nasceu em dezembro de 1916, morreu em março de 2006, prestes a completar 90 anos. Seu último filme ‘Million Dollar Mystery’ havia sido feito em 1987. Não faço a menor ideia do que trata, mas acharia criminoso não lembrar do western ‘Os Três Discípulos do Diabo’, The Spikes Gang, com Lee Marvin, de 1974. Um dia talvez elabore melhor o conceito, mas no meu imaginário, nos altos e baixos das carreiras de cada um, tendo sempre a aproximar Fleischer de Robert Aldrich. Por diferentes que sejam, acho que as experiências, inclusive de querer fazer cinema autoral num contexto industrial, são muito próximas.