Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Flaubert?

Cultura

Luiz Carlos Merten

11 Maio 2008 | 10h46

Já falei aqui muitas vezes sobre ‘Un Coeur Simple’, de Gustave Flaubert, que era o projeto da vida de Vittorio De Sica, em sua fase final. De Sica nunca conseguiu apoio dos produtores – nem de Carlo Ponti, que vivia atirando o filme para depois e o De Sica ficava dirigindo todos aqueles filmes do Ponti para a mulher dele, Sophia Loren… Na tal ‘Studio’ que comprei ontem, descobri que ‘Um Coração Simples’ acaba de ser filmado, na França, por Marion Lanie, que centrou sua adaptação na relação da criada, interpretada por Sandrine Bonnaire, com a patroa, Marina Foïs, grande atriz de teatro. Não era uma reportagem nem uma visita ao set. Só uma nota, que li rapidamente. O texto não faz nenhuma referência a De Sica, mas, em compensação, tem uma coisa que adorei ter lido (eu digo – tenho certas iluminações de coisas que preciso ler). Entrevistado pela revista, no lançamento de ‘O Sol’, Alexander Sokúrov disse que a verdadeira teoria da montagem ele não estudou em Eisenstein nem Pudovkin – russos como ele e que abordaram o assunto por meio obras (textos e filmes) influentes –, mas em Flaubert, em ‘Madame Bovary’. Tudo está lá, disse Sokúrov – o ritmo, a musicalidade. Sobre Sokúrov, quero dizer que, apesar do tour de force técnico, não me impressionei muito com ‘A Arca Russa’ e até achei o filme reacionário – aquela coisa de buscar a Rússia eterna por meio de uma tomada única me parecia muito a negação do ardor revolucionário de Eisenstein, que dizia que o filme deve organizar as imagens no inconsciente do público, e isso tinha de ser feito pela montagem –, mas o Sokúrov de ‘O Sol’, ainda em cartaz (horários alternativos) na cidade, e o de ‘Alexandra’, que me parece a obra-prima dele, para este tiro o meu chapéu. Quer dizer que Flaubert é o mestre de Sokúrov? Bom, eu sou louco pelos franceses, Stendhal, Flaubert, o próprio Zola. Não troco Fabrizio Del Dongo atravessando a batalha em ‘A Cartuxa de Parma’ pelo Pedro, que faz a mesma coisa em ‘Guerra e Paz’ e a cena magnífica é a melhor da adaptação digna que King Vidor fez do monumento literário de Leon Tolstoi. Depois de ler a nota, me deu vontade de (re)ver ‘O Sol’, para ver se tem Flaubert ali dentro, mas não vai dar. Viajo amanhã no início da tarde para a França (Cannes) e gostaria de ver ‘Desonra’, além da peça de Cleide Yáconis. Estou no jornal, por conta de algumas matérias que tenho de deixar prontas. Onde vou arranjar tempo para tudo? ‘O Sol’ vai sobrar, mas vocês podem (re)ver o filme por mim.