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Luiz Carlos Merten

09 Maio 2008 | 23h31

Não resisto a acrescentar um post sobre dois assuntos que estão me consumindo. Ontem cheguei a comentar com meu colega Luiz Zanin Oricchio – cara, que doideira, este caso da Isabella acirrou os piores instintos das pessoas. Aquele povo todo na saída do pai e da madrasta de casa, gritando para linchar; as detentas, hoje, ameaçando a madrasta de morte. A realidade supera o Fritz Lang de ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’. Me lembrei de Milton Gonçalves em ‘Carandiru – O Filme’: todo mundo aqui é inocente. Não é, mas até as presidiárias, que não são santas, acho que se sentem reconfortadas, na sua pequenez, às vésperas do Dia das Mães, ao perceber que existem pessoas piores do que elas. Fui ver hoje ‘O Amigo da Noiva’ no RoboCop, que aloja a cabine da Sony. Na volta, peguei um trânsito do cão na Marginal. Estava no carro do ‘Estado’, o motorista sintonizou numa rádio que apresentava uma dessas salas de redação sobre futebol. Um bando de homens que acha que a vida é só tirar sarro e uma ex do Ronaldo que vive no Japão (e pelo que entendi entrou na indústria pornô). A mulher admitia que usou Ronaldo, o fenômeno, como escada e defendia-se – Xuxa (com Pelé), Adriana Galisteu (com Ayrton Senna) fizeram a mesma coisa, mas agora todas têm um trabalho para mostrar, não precisam mais desses trampolins. Em breve, ela também não vai precisar… Na hora me veio a Divine Brown, lembram dela? Aquela prostituta de rua que foi pega com Hugh Grant, num boquete (sorry…) que entrou para a história. Divine fez um filme pornô e veio ao Brasil para divulgar o trabalho. A assessoria que a trouxe disse que ela não ia falar do episódio Hugh Grant, só da sua ‘arte’. E eu que pensava que a arte dela era aquilo! Mas, gente, acho que, de alguma forma, o assassinato de Isabella e o episódio do fenômeno com os travestis ficou lincado. As duas histórias ocorreram simultaneamente e, repito, liberaram o que há de pior nas pessoas. Sou um cara bem desbocado (admito), mas fiquei envergonhado com as baixarias que ouvi na tal sala de redação. A ex-senhora Ronaldo fingia que tinha compreensão por ele, mas aproveitava para umas observações malévolas que vou te contar… Vingança, diz o ditado, é um prato que se come frio. Aquela estava comendo gelado. Ronaldo errou, ou por outra, ele poderia ter feito o que quisesse, mas ninguém acredita, em sã consciência, que seja possível confundir não um, mas três travestis (nem se fosse a ‘delicada’ da Roberta Close), com mulheres de verdade. A explicação saiu pior do que o conserto. Agora ele só ‘conversou’? Ah. bom,… O problema é que não basta a humilhação do cara. De repente, baixou um moralismo geral e todo o mundo quer o linchamento moral (até físico) do fenômeno. Insisto que os dois casos, por terem ocorrido simultaneamente, confundiram-se no imaginário do público. Não foi por acaso que aquela revista que eu não ouso dizer o nome deu capa para os dois episódios, e não para analisar jornalisticamente, mas para incentivar a cruzada moralista. Sei que me exponho ao falar sobre isso. Não estou querendo defender o pai e a madrasta – as provas são tão concludentes, mas eu ainda me pergunto o porquê de tanto horror – nem mesmo o Ronaldo. Me horroriza, no caso dele, que o herói de ontem tenha de ser destruído com verdadeira volúpia, e por gente que não sei se resistiria ao preceito bíblico (aquele do ‘atire a primeira pedra’). Por que este episódio ofende tanto as pessoas? Por que colocaram o Ronaldo num pedestal? A questão talvez não seja o despreparo dele, mas o vazio das pessoas que precisaram colocar virtudes sobre-humanas em quem, obviamente, não é um herói (e isto o pobre Ronaldo há tempos já vinha demonstrando). Lembrei-me de Maio de 68. Não de Maio mesmo, mas do espírito. Há 40 anos, ‘Pasquim’ estava numa cruzada pela liberalização da imprensa – e dos costumes – em plena ditadura militar. Anselmo Duarte, Maria Bethânia, Lenny Dale e Madame Satã deram entrevistas antológicas. Não sei se foram o Lenny ou Madame Satã, mas alguém, naquela época, disse – tenho certeza – que para curar a homofobia dos brasileiros só se surgisse um grande jogador de futebol que encantasse a massa em campo e admitisse, fora dali, que era gay. O amor do público seria tão grande que ele ia aceitar. Será? Entendo que o episódio do Ronaldo seja diferenciado – não é isso -, mas o que está ocorrendo neste País, neste maio, é uma coisa horrorosa Lá no Pará, o pistoleiro que matou a freira norte-americana mudou o depoimento dele e o júri popular absolveu o fazendeiro que foi o mandante do crime. Tenho certeza de que, se os três casos fossem levados a votação popular, o terceiro terminaria passando despercebido. Afinal, é isso que as pessoas acham que ocorre numa sociedade de classes, na qual a Justiça, até por uma questão de consciência, favorece os ricos. Jure que você não pensa assim? Se eu fosse apocalíptico, diria que tudo isso é o fim dos tempos.