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Luiz Carlos Merten

21 Fevereiro 2010 | 07h10

BERLIM – Saímos ontem para jantar, após a premiação. Kleber Mendonça, Alessandro Giannini, Orlando Margarido e eu. Foi um final de noite agradável, após o estresse da cobertura da premiação. Comemos bem, tomamos um bom vinho (xiii, entreguei – mas a gente merecia), jogamos conversa fora. Hoje, tecnicamente, é o último dia da Berlinale de 2010, que repete os filmes da competição e os vencedores das mostras paralelas. Peguei ingresso para ver dois filmes, ‘L’Autre Dumas’, com Gérard Depardieu, sobre a relação entre o autor de ‘Os Três Mosqueteiros’ e seu ghost writer (que ele tinha!), e o japonês ‘Parade’, de Isao Yukisada, que ganhou o prêmio da crítica na seção Panorama. Amanhã de manhã sigo para Paris (acho que não haverá mais Londres), mas ainda pretendo me agitar bastante neste domingo berlinense, visitando a Nationale Gallerie e a nova casa de Nefertiti (o Museu Egípcio passou por uma reforma e trocou de lugar). Já disse que, de maneira geral, gostei muito da premiação do júri de Werner Herzog. Temia que ele fosse fazer m…, e confesso que foi… O quê? Preconceito? Tolice? Afinal, por mais que goste de ‘O Enigma de Kaspar Hauser’, meu Herzog favorito, não me parece nada meritório que o filme mais recente do diretor seja uma refilmagem de Abel Ferrara (e o ‘Vício Frenético’ original não é apenas melhor, é MUITO melhor). Talvez eu tivesse premiado o filme romeno, mas, além de gostar muito do turco (‘Bal’), ‘If I Want To Whistle, I Whistle’ ganhou dois prêmios importantes, o do júri e o Alfred Bauer, que destaca sempre um filme particularmente inovador (o que o de Florin Serban, sem sombra de dúvida, é). Não resisto a fazer uma observação, mesmo que pareça óbvia, sobre a natureza das personalidades dos presidentes de júris (e das escolhas que refletem). No ano passado, tivemos aqui Tilda Swinton, com seu recorte feminista, que premiou ‘La Teta Asustada’, da peruana Claudia Llosa. Achei uma escolha honesta, defensável até, mas não era filme para ganhar. Não sei se Tilda, tendo à sua disposição a seleção deste ano, teria repetido as escolhas de Herzog e sua trupe, que incluía a atriz Renee Zellweger e a diretora Cristina COmencini. Haviam vários filmes de ‘mulheres’ – da Bósnia, da Argentina, da Dinamarca. Pernille Fischer Christensen (‘En Familie’, A Family) ganhou o prêmio da crítica, Natalia Smirnoff (‘Rompecabezas’ foi ignorada, bem como a bósnia Jasmila Zbanec, de ‘Na Putu’, On the Path. Gostei muito da última e fiquei triste, ontem, porque a entrevista foi cancelada, ou melhor, Jasmila foi substituída por sua atriz, Zrinca Cvitesic. A mãe da diretora morreu e ela teve de voltar correndo para Zagreb. Tenho certeza que essas diretoras, e especialmente Jasmila e Pernille, teriam mais chances num júri ‘feminista’. Posso estar sendo incoerente, reconheço. Me aborreço quando, em festivais no Brasil, sempre as mesmas pessoas cobram essa coisa do olhar feminino. Não creio muito que mulheres dirijam diferentemente de homens. No grupo com Lisa Cholodenko – o filme dela, ‘The Kids Are Allright’, ganhou o Teddy Bear para a melhor obra de temática gay -, um cara falou justamente no olhar feminino (e poderia ser o lésbico, porque a diretora foi logo explicando que tem um filho, menino, com sua companheira, também concebido com o esperma de um doador, como na ficção). Eu atravessei a conversa e disse que não acreditava muito. Citei o ex-casal James Cameron/Katyhryn Bigelow e disse, para provocar, que se existe um olhar feminino é o de James. Kathryn, sem deixar de ser sexy, bela e hetero, é a diretora mais ‘viril’ de Hollywood. Lisa adorou e, depois, ficou o resto da entrevista falando e olhando para mim, como se buscasse aprovação, ou pelo menos entendimento. Enfim, nessa coisa de ‘olhar feminino’ creio mais nas coleguinhas críticas e nas presidentes de júris, tipo Tilda Swinton. Para elas, vale a ideia.