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Luiz Carlos Merten

23 Maio 2010 | 05h00

CANNES – Domingo pela manh’a em Cannes. O festival; termina à noite, com a entrega da Palma de Ouro que será decerné – como dizem os franceses – pelo júri presidido por Tim Burton. Há grande expectativa em relação à Palma. Está todo mundo no escuro, um pouco pela personalidade de M. le Président, mas também porque a seleção deste ano esteve longe de ser uma unamidade. Eu, então, me sinto na contramão. Existe um certo número de filmes que considero ‘premiáveis’, mesmo que, eventualmente, não sejam meus favoritos. Mike Leigh, Alejandro González-Iñárritu, Xavier Beauvois, Lee Chang-dong (de ‘Poetry’). Existem outros dos quais não gostei nem um pouco, o ‘Tournée’, de Marthieu Amalric, que já ganhou o prêmio da crítica, o que, confesso, foi para mim motivo de grande escândalo. Encontrei hoje na Rue d’Antibes – a Rua da Praia de Cannes, a Augusta deles – um amigo português feliz da vida porque o Amalric ganhou. Ele adorou o filme, gostou também do italiano de Daniele Luchetti,  ‘La Nostra Vita’ – eu me decepcionei, depois de gostar tanto de ‘Meu Irmão É Filho Único’ -, e chegou a brincar que, com o tempo, eu aprendo a gostar de ‘Tournée’. Meus favoritos são os filmes mais ousados e experimentais da compétição, o russo ‘My Joy’, de Sergei Loznitsa, com sua mise-en-scène brilhante e a visão devastadora do caos social na Rússia – que os bastidores do outro concorrento de lá, ‘Sol Enganador 2’, de Nikita Mikhalvov, não deixam de conrfirmar -, e o espiritualista ‘Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives’, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, dois filmes completamente diversos entre si, mas que me levaram a ‘viagens’ inesperadas e enriquecedoras. De volta às previsões, já disse ontem que ‘Le Figaro’ havia divulgado seu Palmarès e a Palma do jornal foi para Xavier Beauvois, de ‘Des Hommes et des Dieux’, que ganhou o prêmio do OCIC, o júri ecumênico. ‘Nice Martin’ atribui a Palma a ‘Sol Enganador 2’ – Deus nos livre! -, a Caméra d’Or a Loznitsa, o prêmio de mise-en-scène para Xavier Beauvois e o do júri para Amalric. O festival reprisa hoje os filmes da competição, talvez reveja o de Loznitsa, mas é mais provável que vá ao circuito comercial de Cannes, com três cinemas dotados de várias salas cada, embora a rigor não tenha nada muito interessante em cartaz. Gostei de ‘Robin Hood’, mas não é o caso de rever o Ridley Scott com tanta pressa. Talvez assista ao novo Jean Becker, com Gérard Depardieu. De tanto ver filmes para escrever, ter de tomar partido rapidamente, gosto às vezes de ver pelo prazer dos olhos, sem nenhum compromisso (embora sempre termine me manifestando, de uma maneira ou outra).