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Cultura » Fim da novela ou do mundo?

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Luiz Carlos Merten

27 Março 2012 | 09h10

Bento VI pede sociedade aberta e rejeita o capitalismo. É a chamada do portal do ‘Estadão’. Aleluia! Conversava, na semana passada, por telefone com Robert Guédiguian e ele, um dos diretores mais atuantes e politizados que conheço comentava que Marx, o velho Karl, deve estar revirando no túmulo. Não foi o capitalismo que venceu, mas um perverso sistema bancário que hoje dita as regras nesse mundo globalizado de economia neoliberal. Sou do time, do eu sozinho, que acha ‘A Dama de Ferro’, de Phyllida Lloyd, mais interessante que o ‘Hoover’, de Clint Eastwood, e até acho que o filme com Meryl Streep dá uma pincelada bem interessante sobre a mulher que mudou o mundo. Sábado, acho que foi sábado, estava no Shopping Higienópolis, passei na livraria e vi um livro que me arrependo de não ter comprado na hora. Uma história da relação entre Thatcher e Ronald Reagan e de como eles criaram o século 21, esse mundo que, sob tantos aspectos eu rejeito, mas que também me fascina. Nunca tive dúvida do papel que ambos desempenharam na consolidação do neo-liberalismo, e não apenas a dupla, o papa anterior, João Paulo II, também. João Paulo era um santo homem e o Vaticano tratou logo de encontrar os testemunhos que, daqui a pouco, permitirão que seja canonizado. Mas, a mim, parece que não era muito ‘piedoso’. Era um estrategista político que, tendo vivido sob o comunismo, dedicou sua vida (e papado) à destruição da Cortina de Ferro, sem medir as consequências – essas legiões de excluídos, que são o reverso do consumismo desenfreado (e da concentração de poder e dinheiro) que dão o tom do mundo atual. Aos pobres, João Paulo dava circo (suas viagens midiatizadas) e a promessa de um lugar no céu, desde que fizessem sexo sem camisinha, he-he. Posso detestar Thatcher e Reagan, o que ambos representam, mas os dois me atraem, e muito, como ‘personagens’. Por que divago sobre isso? Ah, sim, por causa da manchete do portal do ‘Estado’, que tenho de abrir para vir para o blog. Nessa altura, nem tive tempo de postar sobre o final de ‘Fina Estampa’ e, aqui, cabe um parêntese. Tenho certa curiosidade pelas novela das 8, como espelho no qual se reflete o País, mas viajo muito e sou ‘rueiro’ demais para ficar preso em casa vendo os capítulos. Havia visto o começo de ‘Fina Estampa’ quando estava no hospital e, depois, em casa, me recuperando da pneumonia. Nunca fui um fã da novela, mas a ‘ararinha azul’ realmente enfiou os pés pelas mãos no final. ‘Ararinha azul’, como descobri na entrevista que o ‘Caderno 2’ fez com João Emanuel Carneiro, apresentando ‘Avenida Central’, é o nome que Aguinaldo Silva dá ao seleto grupo de autores que escrevem para o horário. Aguinaldo deve se achar o Blue (de ‘Rio’), mas eu tomei o maior susto. No fim de semana anterior, estava no Recife e jantando, no domingo, com a trupe de ‘Hécuba’, olhei para a TV e vi, assim, num relance, a Joan Fontaine. Joan quem? Fontaine, a heroína de Alfred Hitchcock, em ‘Rebecca, a Mulher Inesquecível’ e ‘Suspeita’. Que que a Joan Fontaine fazia no ‘Fantástico’? Cabelo platinado, écharpe de seda, tons para o cinza e o azul prateado (ou era bege rosado?) , parecia Joan Fontaine, mas era, ai meu Deus, Aguinaldo Silva, falando do final de ‘Fina Estampa’. Foi o ó. O final, não a entrevista (que não ouvi). O Brasil se redimiu na tela da Globo, todo mundo que não prestava ficou bonzinho, a vilã Teresa Cristina deu-se bem e a Griselda, que teve três anos para se preparar, fez um discurso – a ‘mensagem’ do autor – que se situa entre o débil e o mental. Um elogio ao trabalho, à dedicação, o que é legal, mas a personagem e o autor, até como ironia, deveriam ter pedido aos formandos de Medicina, já que a maioria vai fazer residência (ganhando não exatamente uma ‘fortuna’ em hospitais públicos), que jogassem toda semana na Mega-Sena, porque não foi certamente o trabalho honesto que enriqueceu a personagem de Lília Cabral. Pegando carona em Guédiguian e no papa (Bento), tirando o acaso – a loteria -, quem enriquece nesse ‘sistema’ é banqueiro e, aliás, não sou o tipo de cobrar correção de ninguém, mas vocês não acham meio demais aquele comercial do Itaú em que o Luciano Huck usa o controle remoto para calar a boca do nordestino? Estão loucos, é isso? De volta a ‘Fina Estampa’, tenho de reconhecer que, naquela m… toda, Aguinaldo Silva deve ter rido por último, ao fazer com que Clô e o motorista bofão ficassem juntos. Por que ficaram, não?