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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2007 | 16h40

Antes de virar homem de confiança do próprio Charles Bronson em filmes tão ruins quanto ‘Cinco Dias de Conspiração’, ‘Cabo Blanco’, ’10 Minutos para Morrer’, ‘Justiça Selvagem’, ‘O Vingador’ e ‘O Mensageiro da Morte’, o inglês J. Lee Thompson foi um diretor bem decente nos anos 50. Lembro-me do entusiasmo do P.F. Gastal, assinando-se como Calvero, na ‘Folha da Tarde’, em Porto Alegre, diante de ‘Marcados pelo Destino’ (Tiger Bay), de 1959, com John Mills e a filha dele, Hayley, que virou uma estrela cult entre adolescentes, nos anos 60. Hayley faz a garota solitária que testemunha um assassinado e é ‘abduzida’ pelo assassino, a quem segue numa viagem suicida. John, o pai, é o policial que caça Horst Buccholz, o criminoso. Até onde me lembro, o filme tinha um clima poético, misterioso. Só depois descobri os filmes de J. Lee Thompson com Diana Dors, a Marilyn Monroe inglesa, principalmente ‘Meu Amor, Minha Ruína’, em que ela contracenava com Yvonne Mitchell. Isso me leva a ‘Uma Sombra em Sua Vida’ (The Woman in a Dressing Gown), em que Yvonne Mitchell faz a dona-de-casa de classe média – desleixada em tudo, até no vestir – que entra em choque quando o marido lhe anunciar que está indo viver com outra. Yvonne ganhou o Urso de Prata de melhor atriz em Berlim, em 1957, e o filme, descobri depois, era um dos favoritos de Pauline Kael, a famosa ctrítica norte-americana. Nunca li nada nesse sentido, mas tenho para mim que J. Lee Thompson, sem se integrar ao chamado movimento do ‘free cinema’, por volta de 1960, foi o cara que melhor expressou na tela a geração dos ‘angry men’ ingleses. Dois bons filmes e talvez três – ‘Sangue sobre a Índia’, com Kenneth More e Lauren Bacall – fazem do currículo do diretor algo a se levar em conta em 1960. Justamente ‘Sangue sobre a Índia’, sobre oficial inglês que responde pela segurança de uma princesa indiana numa viagem de trem por território perigoso, me parece ter sido o vestibular de Thompson para ‘Os Canhões de Navarone’, que Carl Foreman, roteirista de ‘Matar ou Morrer’, escreveu e produziu. ‘Os Canhões’, com Gregory Peck e David Niven, foi um grande sucesso na época – em Porto Alegre, me lembro que ficou um tempão (mais de um ano) em cartaz no cinema Guarani, no centro da cidade. Logo depois veio o cult ‘O Círculo do Medo’, de novo com Gregory Peck e agora Robert Mitchum, um filme cuja violência parecia excessiva em 1962, mas que Scorsese superou (a violência, não o filme) com seu remake intitulado ‘Cabo do Medo’, com robert De Niro e Nick Nolte. O que se segue é, para mim, um mistério. Thompson iniciou, não digo que uma queda vertiginosa, pois afinal não era nenhum gênio, mas cooptado por Hollywood ele começou a fazer tudo, e da pior maneira possível. Tenho, mesmo assim, uma simpatia pelo começo da carreira dele e por ‘O Grande Búfalo Branco’, mesmo reconhecendo as falhas de sua direção no western que passa hoje no Telecine Cult. O filme tem um clima sombrio. Desmistifica o herói. É muito falado. Na cena chave, Bronson tem uma conversa ao pé do fogo, se não me engano com Will Sampson, que fazia o índio de ‘Um Estranho no Ninho’. Conversam sobre o medo do guerreiro duante da morte. Quase 20 anos antes, em ‘Terra Bruta’ (Two Rode Together), John Ford filmara outra conversa ao pé do fogo, entre James Stewart e Richard Widmark. Ford não teve medo de interromper a ação para mostrar os dois homens numa longa conversa em plano fixo. Thompson, diretor de ação, teve medo – o reverso de seu filme –, e tentou dinamizar a conversa por meio de movimentos de lentes (zooms) na cara dos atores. Nunca me esqueci do detalhe como o que sempre me pareceu uma concessão indigna de um diretor sério. Mas Thompson foi um diretor cuja morte me entristeceu. Lamentei pelo que poderia ter sido, e não foi. Face à polêmica dos últimos sobre a China (e Mao), confesso que me deu a vontade de rever agora ‘A Grande Ameaça’, que o Thompson dirigiu em 1969. O filme com Gregory Peck trata deste cientista dos EUA que é enviado à China em missão de espionagem. Parece um subproduto de ‘Cortina Rasgada’, do Hitchcock, com Paul Newman e Julie Andrews, substituindo a Alemanha Comunista pela terra do camarada Mao. Na época, a China estava próxima (Bellocchio) e Godard brandia o livrinho vermelho do Grande Timoneiro como a Bíblia em ‘A Chinesa’. Face a tudo o que sucedeu depois, tenho curiosidade de (re)ver como seria – não lembro mais – esta antevisão do futuro da China.

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