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Cultura » Filmes grandes, grandes filmes?

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Luiz Carlos Merten

01 Novembro 2010 | 11h07

Fui ver – finalmente! – ‘Os Mistérios de Lisboa’ e fiquei impressionado (como não?), mas ocorre uma coisa interessante. Se tento pensar no filme, percebo que a impressão está se dissipando, e rapidamente. ‘Mistérios’ é um filme ‘grande’ (4h26, produção impecável), mas começo a duvidar de que seja um grande filme. É muito bem filmado. A movimentação da câmera de Raúl Ruiz cria momentos magníficos, dos quais um dos mais belos (o mais?) é a morte da mulher de Álvaro. Ele se desespera em primeiro plano e depois avança para o quarto (e o leito) em que repousa o cadáver e a câmera, que o segue, desvia-se para entrar pela outra porta, onde a ama deposita o bebê no berço e seguimos o movimento de Álvaro até a cama, só que à distância. Que que é aquilo? Vamos aos pontos. Conheço Ruiz desde o começo de sua carreira, quando ele era Raul (sem acento) e fez no Chile ‘Três Tristes Tigres’, um título tão difícil, para mim, de pronunciar quando ‘Anhaia’ (o nome da rua). Ruiz pertence à geração de Aldo Francia e Miguel Littín, talvez Francia fosse um pouco mais velho que os outros dois. Foram os autores que fizeram o cinema da Unidade Popular, de Salvador Allende. Ruiz chegou a ser o conselheiro cinematográfico do presidente. Após o golpe, ele foi para a França e virou Raoul. Agora, ao fazer ‘Mistérios’, produção de Paulo Branco, o ‘ex’ (produtor) de Manoel de Oliveira, assina-se Raúl. Pode ser que tudo isso configure uma crise de identidade, essas trocas de nomes, e a questão da identidade é essencial na adaptação do folhetim de Camilo Castelo Branco. O tema, a identidade, percorre a obra ‘erudita’ de Raúl Ruiz, que realizou filmes na França, na Alemanha etc, e que no excepcional ‘L’Hypothèse du Tableau Volé’, se interroga sobre o significado esotérico de alguns quadros famosos e também sobre as relações entre imagens e palavras, que estão na base do cinema, tal como o conhecemos hoje (ele começou mudo, é bom lembrar). Sempre me pareceu curioso, embora essa não seja exatamente a palavra, que Luchino Visconti e Joseph Losey tenham anulado as respectivas chances de fazerem ‘Em Busca do Tempo Perdido’ e que Ruiz tenha conseguido concretizar, a toque de caixa, uma bela síntese do romain fleuve de Marcel Proust em ‘O Tempo Reencontrado’, enquanto outro diretor importante, o alemão Volker Schlondorff, tropeçou naquele bem produzido, mas bem medíocre, ‘Um Amor de Swann’. Vi e revi ‘O Tempo Reencontrado’ e me encantou, acima de tudo, o ‘estilo’. A movimentação da câmera, a cor, a música, tudo aquilo que, de novo, me fascinou em ‘Mistérios’. Não conheço o livro de Camilo Castelo Branco, mas outro folhetim, ‘Os Mistérios de Paris’, de Eugene Sue, foi uma das minhas leituras de pré-adolescente, na Coleção Terramarear da Melhoramentos, que esculpiu uma ética da aventura no meu imaginário que permanece até hoje. Considerando-se a força da cultura nos salões portugueses, não é exagerado supor que o livro do ‘Beau Sue’, como ele era chamado, por seu sucesso junto às mulheres, tenha influenciado o folhetim de Castelo Banco, ‘Os Mistérios de Paris’ é de 1842 e os ‘de Lisboa’ de 50 e poucos. Gosto dessas narrativas caudalosas, cheias de peripécias e sub-tramas que vão se abrindo (e completando, embora às vezes a espiral permaneça em aberto). Mas confesso que esbarrei em duas coisas que podem até ser tolices – uma, pelo menos. Não consegui engolir que aquele menino lindo, cujo sofrimento (com o da mãe) me dilacerava o coração, tenha virado aquele adulto. E empaquei, na cena pós-duelo, naquele suicídio, o tiro disparado no próprio peito, que embolou toda a parte final, quando o filme retrocede até o garoto gélido. Gostei, mais do que tudo, do Ricardo não sei das quantas, que me dizem ser galã da Globo, e das atrizes de Christophe Honoré, Clotilde Hesme, fazendo a Milady vingativa de Castelo/Ruiz, e Léa Seydoux, a quem Amos Gitai já dera, na Mostra, outro belo papel em ‘Roses à Crédit’. Todo o episódio envolvendo Ricardo e Clotilde, no melhor estilo ‘novelão’, me encheu os olhos e a alma, mas não creio que o tempo reencontrado do desfecho tenha a mesma dimensão do de Proust. Incomodou-me a distorção da imagem, na cena do delírio, que é retomada. Admiro (e respeito) Ruiz, mas, em matéria de filme ‘grande’, ‘Carlos’, de Olivier Assayas, é maior.

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