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Luiz Carlos Merten

04 Março 2007 | 11h13

Não preciso nem responder à pergunta da Cláudia, se existe algum filme do qual não gosto. O Fábio já respondeu – sempre existe Os Infiltrados, né? Mas, agora, sem brincadeira, tem muito filme ruim, ou que acho ruim, de que termino gostando porque me motiva mais a escrever do que certos filmes bons, mas um tanto anódinos, que a gente vê, diz que é legal, mas no fundo não tem muito mais a dizer. São filmes que não motivam uma reflexão mais funda (seja sobre a vida ou o cinema). Olhaqui – sobre o filme da casaca, nos anos 40. É Tales of Manhattan, que no Brasil se chamou Seis Destinos, de 1942. P.F. Gastal, o Calvero, já dizia em Porto Alegre, quando eu era garoto, que Julien Duvivier havia sido o diretor francês que melhor se havia adaptado em Hollywood, na época da 2ª Guerra, quando importantes diretores da França, que fora ocupada pelos nazistas, se exilaram nos EUA, porque não quiseram prosseguir com a carreira sob o governo colaboracionista de Vichy. O mais célebre deles foi Jean Renouir, Le Patron, como a ele se referia Truffaut. Mas a obra americana de Renoir é realmente menos interessante que a de Duvivier. Ele fez na França, acho que em 1938, Un Carnet de Bal, com Marie Bell, sobre as lembranças que um velho carnê de baile, daqueles em que se escreviam os nomes dos caras com quem as moças iam dançar, provocam numa viúva. Seis Destinos segue mais ou menos a mesma linha. São seis histórias sobre os efeitos de uma casaca na vida de um punhado de homens, em momentos decisivos. O episódio de Edward G. Robinson é do cara que precisa da casaca para ir à festa de reunião da velha turma da escola, 25 anos depois. De novo o passado, o tempo, a lembrança. Duvivier fez mais um filme em episódios – que eu me lembre – e foi em seguida, Os Mistérios da Vida, de novo com Edward G. Robinson, contando três histórias de sobrenatural – havia uma quarta, mas foi deletada no lançamento original. Seis Destinos não foi lançado no Brasil, digo em DVD, mas talvez possa ser encontrado na versão original, via Amazon. É bom falar de Duvivier. Ele pertence à geração do cinema de ‘qualidade’ que Truffaut demoliu, no alvorecer da nouvelle vague, mas Truffaut foi injusto. Orson Welles tinha a maior admiração por Duvivier, certamente o admirava mais que a Truffaut, e ao longo de uma carreira que atravessa décadas (e fêneros) JD fez filmes que se tornaram referências, principalmente os ligados à tradição noir – Pânico, uma adaptação de Simenon, com Michel Simon e Viviane Romance, e Câmera Ardente, com Jean-Claude Brialy e Nadja Tiller. Duvivier morreu no trabalho, na pós-produção de seu último filme – Diabolicamente Tua, com Alain Delon e Senta Berger. Seu maior sucesso foi a série Don Camillo, com Fernandel e Gino Cervi, sobre as relações de um padre com o prefeito comunista de vsua pequena cidade. É engraçado. Comecei o post falando de um presumível filme ruim e terminei falando de um diretor que Truffaut & Cia. achavam ruim, mas que era bom. É um post sobre as relatividades dos pontos de vista, portanto.