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Filme político, um gênero comercial?

Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2006 | 12h36

Vejam como são as coisas. Fui ao centenário arquivo do Estado – a verdadeira Biblioteca do Congresso, segundo o modelo americano, da imprensa brasileira – porque me deu uma vontade de ler o que se havia escrito sobre Damiano Damiani. O ponto é que existem cinco filmes de Ettore Scola (Feios Sujos e Malvados, Nós Que Nos Amávamos Tanto, O Baile, Trevico-Torino e Um Dia Muito Especial), quatro dos irmãos Taviani (Os Subversivo, Sob o Signo de Escorpião, Pai Patrão e O Prato) e três do Giuliano Montaldo (Il Giocattolo, Giordano Brunop e Sacco e Vanzetti) na retrospectiva do cinema político italiano que a Mostra vai exibir, mas nenhum do Gillo Pontecorvo e apenas um (L’Instruttoria É Chiusa: Dimentichi/Só Resta Esquecer, de 1971) do Damiani. Por mais interessantes que sejam, seria melhor menos filmes dos outros e mais do Damiani, além dos clássicos do Pontecorvo (A Batalha de Argel e Queimada). Não estou inteiramente de acordo com as escolhas. Preferiria, dos Taviani, O Signo do Escorpião e dois ausentes, Un Uomo da Brucciare e Allonsafan.Também acho uma pena que a retrospectiva não tenha privilegiado Confissões de Um Comissário de Polícia a Um Procurador da República, que Damiani fez em 1970, com Franco Nero. De alguma forma, esse filme resume o esplendor e a limitação do cinema político italiano. É empolgante, como relato de ação (até onde me lembro), mas não é um filme revolucionário, como se dizia na época, sendo mais reformista. A grande crítica que se fazia, na época, ao cinema político italiano é que era um gênero comercial. O próprio Damiani, numa entrevista que encontrei no dossiê dele, no Estado, dizia em 1979 que na Itália se podia fazer cinema político desde que atraísse o público. Encontrei também outro texto, não mais uma entrevista, mas uma reflexão seríssima, no qual Luiz Israel Febrot discute a tendência. Sob o título Filme Policial, Uma Estética Ineficiente, ele analisa os policiais de Elio Petri e Damiano Damiani e conclui que os autores criticam o abuso do poder, mas não fazem a crítica das instituições republicanas, colocando em xeque a Justiça, a Polícia, o Legislativo, o Executivo, como fariam, se fossem verdadeiros revolucionários. São, no máximo, reformistas, o que Febrot não afirma, mas deixa subentendido. (Damiani fez um filme revolucionário, Gringo/Quien Sabe?, um spaghetti western com Gian-Maria Volontè e Lou Castel, em 1966 ou 67, mas esta é outra história). O texto do Febrot é polêmico e muito interessante. Acho que vou oferecê-lo a Leon Cakoff, como subsídio para uma discussão que pode ser feita na Mostra. Ou, então, peço a alguém, para digitar e coloco aqui, embora seja enorme. Para cinéfilos, será um documento imprescindível na avaliação da retrospectiva do cinema político italiano.