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Cultura » Filme policial, estética ineficiente?

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Luiz Carlos Merten

23 Outubro 2006 | 15h28

Um dos destaques da 30ª Mostra está sendo a retrospectiva do cinema político italiano. A título de contribuição para o debate, coloco aqui abaixo um texto do Luiz Israel Febrot, publicado no Estado, em 25 de fevereiro de 1984, no qual o autor discute a validade do filme policial como instrumento de análise política, concluindo que se trata de uma estética ineficiente. Nem me lembro mais sobre o que estava pesquisando no arquivo do Estado, possivelmente sobre o Damiano Damiani, que é um autor que me interessa bastante – acho que devem ser as duas únicas coisas sobre as quais Carlos Reichenbach e eu sempre estivemos de acordo, Damiani e o Brian De Palma de Scarface –, quando encontrei o texto que me pareceu muito revelador e que gostaria de ter republicado, mas sem chance. Ele é longo (prepare-se!), mas acho fundamental porque levanta questões que eram formuladas na época e permanecem atuais, a despeito de todas as mudanças ocorridas no cinema e no mundo. Eis o texto –
A trama policial é um instrumental estético insuficiente para analisar a complexidade do jogo social e a natureza essencial do poder, tanto no romance como no teatro ou mesmo no ensaio. Dashiell Hammett, autor de novelas policias célebres, era mais culto e politizado que sua companheira Lillian Hellman; no entanto, o grande nome da arte americana é Lillian e não Hammett. Álvaro Lins, mestre do ensaio literário brasileiro (oh, tempos de crítica literária em rodapé!), em erudito mas pouco crítico estudo, “No Romance Policial”, reconhece implicitamente seu menor valor. Antônio Cândido, em artigo sobre o filme “Investigação sobre um Cidadão acima de qualquer Suspeita”, analisa o papel da polícia, lembrando que Fouché a tinha transformado num instrumento preciso e onipotente, necessário para manter a ditadura de Napoleão – mas criando dentro da ditadura um mundo paralelo, que se torna fator determinante e não apenas determinado.
Só o setor político da polícia (CIA, KGB, SNI, etc.), tem, por si, força específica, porém o mais das vezes articulado ou entrosado com o poder político. O poder policial dificilmente é o principal poder da engrenagem social – ainda que possa em determinadas circunstâncias assumir força própria incontrolável. A intriga “policial-artística” sofre de mais um vício congênito: o diabolismo, equivalente à teoria conspiratória para destruir a sociedade, nos moldes de “Os Protocolos dos Sábios de Sion”. Essa visão diminui a importância das forças vivas do corpo social e transforma o embate social num mero jogo de intrigas, ciladas, falsos e apócrifos, de pessoas ou grupos mal-intencionados. É a tentativa de explicar a história através da forma do nariz de Cleópatra, como dizia George Bernard Shaw. A discussão sobre poder e polícia vem a propósito de “Advertência”, de Damiano Damiani, produção italiana de 1980, em exibição na cidade.
“Advertência” parece ser o final de um filão do filme político cuja trama o sujeito é a polícia e cujo objeto é a análise social, geralmente o poder ou a corrupção. Esse filão representou para o cinema italiano um recuo e não um avanço, que, embora volumoso, foi qualitativamente ralo. O início desse filão político-policial, devido ao impacto, foi o já clássico “Investigação sobre um Cidadão acima de qualquer Suspeita”, de Elio Petri, 1970; depois, sucederam-se incontáveis filmes policiais. O balanço (final?) desse filão não parece ser totalmente positivo.
A revelação cinematográfica mundial do pós-guerra foi o cinema italiano; e, no cinema italiano, o neo-realismo. A França tardou a recuperar-se dos problemas da guerra e a Alemanha perdeu (não fisicamente) quase todo o seu estoque de diretores. A linha neo-realista italiana, simbolizada por Cesare Zavatini-Roberto Rossellini-Vittorio de Sica, produziu os frutos que dela se esperava e em seguida surgiu uma geração de cineastas de tendência e visão Multiformes, mas a maioria batizada em torno da realidade italiana ou européia. A temática política ou abordagem social mais direta foi o seu objetivo e temário. A “Ladrões de Bicicleta” e “Umberto D” seguem-se Gillo Pontecorvo com “A Batalha de Argel”, 1965, e o extraordinário “Queimada”, em 1969; Bernardo Bertolucci realiza Prima della Rivoluzione, 1965. O corajoso Le Mani Sulla Citta, de Francesco Rosi, é de 1963, e “O Caso Mattei”, de 1972; um ano antes , Giuliano Montaldo havia filmado “Sacco e Vanzetti”. “O Conformista”, de Bernardo Bertolucci, é de 1970 e de 1971 é o polêmico e agressivo filme de Elio Petri, “A Classe Operária vai ao Paraíso” (posterior a “Um Cidadão acima de qualquer Suspeita”). E, em 1976, Bertolucci apresentaria “Novecento”, um afresco da sociedade italiana.
A articulação entre o tipo de filme produzido e a situação político-econômica italiana é um exercício a ser inferido do estudo comparativo filme-atmosfera social. Não através do critério de causa e efeito imediato e necessário, nem tampouco através de uma cronologia linear. Mas da análise global de ambos. Enfim, o período relacionado representa duas década muito criativas e polêmicas par ao cinema italiano, que então firma seu nome internacional. Eis que em 1970 irrompe “Investigação sobre um Cidadão acima de qualquer Suspeita”, de Petri, que em certo sentido expressa o clima diferente da sociedade italiana e um ângulo diverso de abordagem do fato social (mera questão de perspectiva?), e também o início de um filão industrial-cinematográfico.
E “Advertência”, de Damiano Damiani, parece indicar o esgotamento do filme político-policial. O autor já havia anteriormente incursionado no mesmo terreno com “Confissões de um Comissário de Polícia a um Procurado da República”, 1971, também de originalidade duvidosa. “Advertência” é um filme de lugares-comuns tanto na intriga como nas situações, personagens e ambientes. Mas contém idéias surpreendentes; expõe exatamente o contrário do que o público espera e o que o filme parece pretender no início. O público compartilha da opinião de Antônio Cândido no artigo já citado, que lembrava, a propósito de Balzac, que este “viu a solidariedade orgânica entre ela (polícia) e a sociedade, o poder de seus setores ocultos e o aproveitamento do marginal para fortalecimento da ordem. Em seus livros há um momento onde o transgressor não se distingue do repressor”. Álvaro Lins considera que uma das condições do romance policial é o enigma.
A resposta de Damiano Damiani ao entendimento generalizado é paradoxal e primária: a polícia é honesta e o enigma está situado no lugar errado. No filme, o enigma não é o motivo, a atividade concreta ou a moral dos financistas que estão corrompendo o corpo policial; e, sim, quem é o policial corrupto? Resposta não há, pois o filme se esquece de identificar esse policial e prefere responder que a polícia como um todo é uma entidade honesta, cuja atividade visa só ao bem público. Honesto é o comissário Berrezi-Giuliano Gemma e honesto é também o comissário-chefe Martorano-Martin Balsan – embora um desconfie do outro. O entrave ao combate eficaz ao crime e à prisão rápida dos criminosos, no filme, é a Procuradoria, a Magistratura. A polícia, além de ser isenta de responsabilidade, recebe um incentivo comovente: se o policial confiasse no colega, ela seria mais eficiente… Por enquanto, essa situação não tem fundamento na Itália, nem em nenhum outro país conhecido.
A deficiência do filme está presente também na abstração do objetivo. Um grupo de homens de finanças, em busca de imunidade, corrompe e mata. Mas qual é a atividade criminosa que os banqueiros pretendem encobrir, qual é o seu conceito de moral e de sociedade bem organizada? O filme não responde. Há insinuações sobre drogas, câmbio (entrevista coletiva com a imprensa), mas nada de concreto. Pode-se responder que o filme pretende analisar as formas de corrupção com que se pretende envolver a polícia. Mas se ignorarmos o motivo concreto que conduz à corrupção, a análise social inexiste e a trama concentra-se na vazia ação pela ação. Em “O Inimigo do Povo”, de Ibsen, quando se denuncia o caráter imoral do prefeito e os cidadãos de bem que preferem que continue a poluição das águas de banhos e potável, visto que a denúncia significaria prejuízo financeiro, há a denúncia e a comprovação aceitável do caráter anti-social do procedimento dos denunciados, e a luta de um homem realmente moral e de bem, o dr. Stockmann, tanto assim que a denúncia se verifica no primeiro ato. Enquanto em “Advertência”, como em outros filmes, os corruptores são meramente pessoas, o “eterno ser humano” e não entidades sociais e psicológicas.

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