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Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2008 | 09h34

GRAMADO – Paulo Santos tenta me pegar pela palavra e me acusa de aplicar a lei dos dois pesos e das duas medidas. Como falei mal do Paulo Pons, não por ele fazer filmes para o mercado, mas por dizer que faz filmes para o público, não para ele, o xará me veio com a acusação de que Breno Silveira disse a mesma coisa e eu silenciei. Onde, camarada? Quando, cara-pálida? Falei pelo menos duas vezes com Breno Silveira sobre ‘Era Uma Vez’, além de havê-lo visitado no set de filmagem, no Rio. Sem dúvida que Breno se preocupa com o público – Júlio Bressane, com seu perfil de diretor ‘erudito’, se preocuipa também, mas ele se preocupa mais com a mediocrização do gosto do público, e dos filmes, uma coisa puxando a outra para baixo -, mas vejam o que ele me contou. ‘Era Uma Vez’ era o filme que Breno queria fazer antes de ‘2 Filhos de Francisco’. Na verdade, bem no começo da carreira dele, quando pensava em se lançar como diretor, ele tewntou comprar os direitos de ‘Cidade de Deus’, mas já haviam sido vendidos para Fernando Meirelles. ‘Era Uma Vez’ nasceu de outra parceria com o escritor Paulo Lins, mas o Breno foi atropelado pelo fenômeno ‘Francisco’, que virou o maior sucesso de público da Retomada, com seus mais de 5 milhões de espectadores. Contra a avaliação de amigos, o diretor retomou o ‘Era Uma Vez’. Diziam que o filme seria muito carioca, que o público estava saturado de morro e violência. Breno foi adiante porque era o filme que queria fazer e foi, aliás, o que lhe disse (e escrevi), às vésperas da estréia. Breno estava ansioso, todo dioretor que conheço, mesmo o mais blasé, fica. Disse-lhe que, se o filme fracassasse na bilheteria – como, efetivamente, foi mal -, ele sempre teria o consolo de haver feito, como queria, o filme que desejava. Breno mudou o final. Quer dizer – no filme, como em ‘Romeu e Julieta’, a dupla morre. Quando Breno mostrou o filme para sua mãe, ela lhe perguntou o que ele havia feito? Breno é um cara que acredita na virada, mas o filme estava desesperançado, cavava ainda mais o abismo que separa o morro do asfalto. Breno inventou o final com Thiago Martins, o ator, não mais o personagem, que eu achei maravilhoso (mas que meio mundo deplora). Veja, Paulo, vai nisso tudo uma diferença muito grande. Não critico, nem nego o filme de mercado. Adoro a série do Homem-Aranha de Sam Raimi, a do Batman, de Christopher Nolan. ‘O Cavaleiro das Sombras’ é tão autoral que não imagino o Nolan dizendo outra coisa senão que fez o filme para sua satisfação pessoal. Em conversa com Sam Raimi, em Tóquio, na pré-estréia mundial de ‘Spider Man 3’, ouvi do diretor como seu irmão e ele desenvolveram a história que queriam – para falar de paternidade e família – e de como não arredaram pé. O que critiquei no Paulo Pons foi a postura não faço filmes para mim, mas para o público. Nunca conheci um diretor que me dissesse – vou fazer um filme para 2 mil espectadores, que serão os capazes de entender. Por que não 500, então, ou mil, ou 5 mil? Ocorre de muitos filmes fazerem só 2 mil espectadores, mas nãso é por esse número que eu vou gostar mais ou menos deles. O número, na apreciação, não tem nada a ver. Mas essa coisa de abrir mão, antecipadamente, da autoria, não me convence. Acho, e os parcos encontros que tive com Steven Spíelberg, George Lucas, James Cameron etc, me convenceram de que esses caras filmam o que gostam, para eles, e o sucesso de público é conseqüência. Não seja injusto comigo, Paulo.

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