Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Filme de festival?

Cultura

Luiz Carlos Merten

13 Agosto 2008 | 11h18

GRAMADO – Preciso voltar atrás, rapidinho, ao Fábio Negro, que pelo visto se encandalizou quando disse que ‘Vingança’ não é filme de festival. Fábio pergunta-se – filme de festival? QUE É FILME DE FESTIVAL? Pois é, Fábio, nem eu sei, mas sei o que não é, com certeza. ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’ pode passar em Cannes numa sessão especial, por seu apelo midiático, mas não é filme para competição. Amo o Batman de Cristopher Nolan, ‘Cavaleiro das Trevas’, e até lhe daria a Palma, se estivesse no júri, mas não creio que seja outro filme para competir num grande festival. Em geral, eles têm uma preocupação mais humanista, investigam a linguagem, alguma coisa assim. No caso de ‘Vingança’, o próprio diretor Paulo Pons enfatizou no debate – no pouco que consegui ver, porque a falta de internet me deixou louco ontem de manhã, para transmitir matérias que, afinal, caíram da edição e foram somente para o portal do ‘Estado’ – que sua preocupação é com o público, portanto, com o mercado. Ele disse que cortou sem dó para tornar o filme mais eficiente e repetiu que não fez o filme para si mesmo, mas querendo contar uma história que atingisse o maior número possível de espectadores. O debate até começou tarde porque o Paulo queria ver a reação da platéia na sessão de público, que se realiza pela manhã (e que serve como repescagem para quem perdeu a sessão oficial, da noite anterior). Não discuto a seriedade do Paulo nem sua disposição de fazer (no capricho) cinema com continuidade industrial, mas fico sempre com o pé atrás com essa história de ‘público’. Sim, eu também quero ser lido, quero que as pessoas vejam os filmes de que gosto. Se conseguisse, ou tivesse influência, mais gente estaria indo ver ‘Era Uma Vez’, ‘Encarnação do Demônio’ e, agora, ‘Nome Próprio’. Mas, em primeiro ligar, o que é o público? O público dos cinemas não é uma massa uniforme a que se possa satisfazer facilmente. É muito heterogêneo e tenho a impressão de que, hoje em dia, o próprio conceito da cultura de massas sofreu uma mudança, porque a grande indústria do entretenimento, embora sempre querendo antecipar a demanda, trabalha com o conceito de itens culturais diferenciados. O gosto do espectador, mesmo ‘médio’, evoluiu muito porque hoje ele dispõe de mais conhecimento e referências. A arte, e o cinema, viraram um jogo de alusões e referências cruzadas, tanto por parte do diretor quanto do espectador. É preciso que haja uma confluência de interesses, e nenhuma ‘fórmula’ garante isso, para um filme fazer sucesso. Me preocupa quando um diretor diz que não faz filme para ‘ele’. Sim, todo diretor deve fazer filmes para ele, o Paulo Pons como o Bressane, cada qual com seu nível de cultura e exigência, e tanto faz se querendo atingir um público imenso ou pequeno, mais seletivo. Nas raras vezes em que tive acesso ao Spielberg falando em Cannes, ou ao George Lucas, agora no rancho dele, nenhum dos dois fala no público, mas fala nos seus gostos pessoais. Era o que dizia George Cukor acho que há 50 anos. Ele não fazia filmes para o público, porque não sabia quem era o espectador, fazia os filmes que lhe agradavam e quando agradavam aos outros, melhor, porque o esatúdio ficava satisfeito e ele ganhava mais liberdade para o projeto seguinte. Imagino que um Almodóvar vá dizer a mesma coisa. E é porque ele é fiel a si mesmo que ele agrada. Cinema, mesmo industrial, cria um produto diferenciado do carro, da torradeira. No caso desses, basta seguir o manual de instruções que a máquina funciona. O filme, não. No escurinho do cinema, funciona o tal mecanismo de identificação projetiva e pessoas sentadas lado a lado podem ter reações diferentes, até opostas. Divaguei bastante. Agora, tenho de trabalhar.