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Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2006 | 08h54

Assisti ontem de manhã ao novo filme do João Falcão, adaptado da peça Fica Comigo Esta Noite. É curioso, mas quando Flávio de Souza escreveu seu texto ‘ficar’ ainda não tinha a conotação que tem hoje. À tarde, encontrei-me com o João e o par romântico dele, Vladimir Brichta e Alinne Moraes, que me confessou que o N dobrado dela é coisa de numerologia. Está dando certo?, quis saber. Ela não se queixa. Fez diversas novelas, um filme como protagonista e agora conseguiu uma licença da Globo para investir na carreira de atriz de teatro. O teatro, muito justamente. Vlad não quer ficar confinado à etiqueta de galã. Quer voltar logo ao palco e planeja reestrear um Calígula (que já montou em Salvador). Essa vontade de mudar liga-se à atual fase. Vladimir tem uma filha de nove anos, que vive com ele (e ama de paixão). A garota nasceu quando ele tinha 21. Não foi planejada, mas muito bem recebida. Até o fim do mês nasce seu filho com Adriana Esteves e, agora sim, é uma paternidade programada. Um outro mundo parece configurar-se para o Vladimir. À noite, houve, no Unibanco Arteplex, a pré-estréia de Fica Comigo para convidados. Encontrei o produtor Diler Trindade, que está cheio de expectativa. Ele acredita no filme (comprou os direitos da peça e convenceu João Falcão a dirigi-lo). Gosta da história, do elenco, da direção. Anuncia que será um lançamento médio – umas 70 cópias, talvez 90, coisa que ontem a distribuidora Buena Vista ainda discutia. Quando fui conversar com o João, ele me disse que estava tranqüilo, mas achei-o um pouco ansioso. O fracasso de A Máquina foi um baque para ele. Gosto demais da Máquina (bem mais do que do Fica Comigo), acho-o sofisticado e muito rico do ponto de vista da dinâmica das estéticas, a serviço de uma linda história de amor e de tempo. João até onde tenta entender onde falhou. O filme foi mal nos cinemas – hoje, no DVD, ele tem uma resposta que não teve antes. Só agora as pessoas comentam A Máquina com o diretor e, quando o fazem, é para dizer que gostaram. Ele sabe que, mesmo entre a crítica, seu filme não foi uma unanimidade. Eu gostei, Nelson Hoineff gostou, mas A Máquina também teve críticas péssimas (de gente que, equivocadamente, tratou o filme como produto televisivo, disse ao João). O diretor admite que adoraria receber o afago da crítica, mas está de olho mesmo é no público. Gostaria muito que Fica Comigo fizesse sucesso, e não apenas por ele, mas pelo Diler, que caprichou na produção. Fica Comigo tem características diferenciadas. Não tem nenhum aporte da Globo, nem o plano C da empresa, aquele que garante o mínimo de exposição (20 segundos de comerciais em praças importantes) aos talentos da casa. João continua global. Quer seguir no cinema (e tem projetos autorais próprios, não mais adaptações), mas deu-se conta, mais do que nunca, do que representa a TV, como meio para se trabalhar e atingir o grande público. Ele fez uma versão de Os Sete Pecados Capitais, sete histórias dele, que não têm nada a ver com os livros da editora, senão me engano, Objetiva. João não sabia dos filmes franceses, a versão de 1952 e a de 1962 (que tinha até Godard). Entre os sete, A Inveja reúne Vladimir Brichta e Marcelo Antony. A Globo queria apresentar Os Sete Pecados em sete edições do Fantástico. Agora, decidiu que vai ser só uma, em 17 de dezembro, como parte de seus especiais de fim de ano. Cada episódio, em torno de quatro minutos, será apresentado num quadro. A coisa promete. E, ah sim, Fica Comigo agradou bastante, ontem à noite, ao público de convidados, que não vale como uma platéia ‘normal’. Na saída, as pessoas diziam que se divertiram com a história de fantasmas do João. A questão é multiplicar esse ‘gostar’ no lançamento comercial dia 27.