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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2010 | 11h19

Escrevi ontem à noite aquele post, rapidamente, só para dar notícia, mas não creio que tenha dado conta do encantamento que me produziu ‘Faça-me Feliz’. O filme de Emmanuel Mouret terá sessões hoje à tarde, 14 horas, na Reserva Cultural, e às 18h20 no Arteplex Frei Caneca. Falei em Jacques Tati, a propósito de Mouret, e da originalidade da sua proposta, que consiste em aplicar à comédia romântica certos postulados estéticos do criador de M. Hulot. Mas há algo também de Buster Keaton, o homem que nunca ria, em Mouret, porque ele passa pelo filme, e por todos os acidentes que catalisa, também sem rir. No final, mesmo quando obtém, enfim, o desejado sexo, há um clima de tristeza, porque algo se perdeu no meio do caminho. Estou falando de uma forma meio aérea, para não tirar a graça de quem for ver o filme. Eu mesmo não sabia o que esperar, quando entrei sábado na sala do Estação Ipanema, no Rio. Só me haviam dito que o filme era ‘drôle’, engraçado, mas é uma graça triste que faz seu encanto particular (para mim, pelo menos). O Festival Varilux mostra hoje pesos pesados – ‘Oceanos’, o documentário, melhor dizendo, balé marítimo de Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, às 16 horas no Arteplex; e ‘Hadewijch’, de Bruno Dumont, às 18h10, na Reserva Cultural. Conversei bastante com Cluzaud, no Rio, e a entrevista está no ‘Caderno 2’ de hoje. Depois de fazer com que a gente voasse com os pássaros em ‘Migração Alada’, Cluzaud e Perrin nos levam agora ao fundo do mar, entre os peixes. Há um momento do filme em que a câmara nada ao lado do grande tubarão branco e ele contou, o que é difícil de acreditar, que o bicho não ataca o homem, que o tubarão branco como predador é lenda. Incomodado pelo som ou pelas bolhas de ar, ele tenta abocanhá-las e termina arrancando pedaços de pessoas e animais. Para evitar que os mergulhadores produzissem bolhas de ar no fundo d’água, eles usaram roupas especiais, que reciclavam internamente o ar produzido pela respiração. Dessa maneira, conseguiram chegar, sem que um acidente tenha sido produzido, mais perto do tubarão branco do que quaisquer outros cinegrafistas. E hoje, às 15h50 na Reserva e às 20h10 no Arteplex, ainda tem ‘Coco Chanel & Igor Stravinsky’. Revi o filme que encerrou Cannes no ano passado na quinta-feira, quando abriu o Festival Varilux no Odeon, em plena Cinelândia do Rio. Na saída, ocorreu algo maravilhoso. A ópera ‘O Trovador’, de Verdi, montada por Bia Lessa, terminava ao mesmo tempo no recém inaugurado Teatro Municipal. A Cinelândia estava super iluminada, os dois públicos se encontraram e formaram um rio humano, com ondas que se espalhavam para todos os lados. Fiquei pasmo, no meio daquela multidão, na qual havia pessoas conhecidas. De volta a ‘Coco Chanel’ a versão de Jan Kounen, com Anna Mouglalis e Mads Mikkelsen. Ela é carismática, ele é um p… ator. Não creio que seja um grande filme, nem mesmo um bom, realmente bom. Mas tive imenso prazer em rever ‘Coco Chanel & Igor Stravinsky’ e a cena inicial é de cortar o fôlego. Kounen reconstitui o momento de estreia de ‘A Sagração da Primavera’, quando a música de Stravinsky, coreografada por Nijinsky, foi rejeitada pela plateia parisiense. A recriação da cena é impressionante, os bailarinos no palco, sob vaias, o público dispersando-se, o clima de caos dominando o teatro e o colapso atingindo o artista nos bastidores. Pode ser, como já disse, que o filme não seja tão bom, mas esta cena é genial – no fim, há outra apresentação da ‘Sagração’, sem coreografia, e aí é a apoteose. Entre esses extremos, Coco e Stravinsky vivem uma relação intensa, que o espectador já sabe, desde o começo, estar condenada pelo temperamento dos dois. Stravinsky revolucionou a música, suas cenas de sexo com Anna/Coco são acrobáticas. Nada de impressionismo – eletricidade, tempestade pura. Vejam e depois digam se exagero. Pensei em Glauber, ‘Terra em Transe’, e antes dele em Anthony Mann, ‘A Queda do Império Romano’, Sophia Loren correndo entre o povo, nas ruas, enquanto Roma está sendo leiloada. É preciso uma ordem para filmar o caos, o transe. Não basta soltar a câmera. Não estranhem se me virem hoje numa das sessões do filme de Kounen. Aquele começo, como dizem os franceses, ‘m’a bouleversé’.