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Festival do Rio (9)/E chegamos aos ‘finalmentes’

Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2017 | 10h38

RIO – E o 19.º festival vai terminando. Não fiz tantos posts como gostaria, mas é que a vida este ano terminou sendo um pouco mais corrida que de hábito. Cabines pela manhã, quase todo dia, muitas entrevistas, sucursal à tarde e a Première Brasil à noite. O problema é que todas essas atividades exigiam/exigem deslocamentos, e o hotel é em São Conrado, a sucursal no Centro e as sessões da Première no Lagoon. Haja disposição de correr para lá e para cá – de táxi, metrô. chegava sempre de madrugada no hotel, e ainda queria ler. A Première terminou na quinta à noite com Unicórnio, e ontem encontrei, graças a Inês Peixoto, do Galpão, que está no elenco, o diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. Inês é mãe da atriz principal, Barbara Luz, e a garota é sensacional. Eduardo Nunes, o diretor, já havia feito aquele poema em preto e branco, Noroeste. Fez agora essa fábula na qual a cor,m como a paisagem, é essencial. Elaine Guerini diz que a paisagem é de Peter Jackson. Nossa Terra-Média situa-se entre Teresópolis e Friburgo, no Parque Estadual dos Três Picos, onde Eduardo e Lauro ambientaram seu filme ‘sugerido’ por contos de Hilda Hilst – não é uma adaptação formal – e que trata de amadurecimento e perdas, o todo – tudo – visto pelo olhar da garota, Maria (Bárbara). E o Redentor de melhor fotografia vai para… Mauro Pinheiro Jr. ou Dante Belluti, de Como É Cruel Viver Assim? Sorry, mas não vejo possibilidade de nenhum outro diretor de fotografia empalmar a estatueta. E chegou a hora dos prêmios. A Première ainda não terminou para mim. Hoje, preciso recuperar o documentário de Evaldo Mocarzel, meu ex-editor no Caderno 2 – Até o Próximo Domingo, sobre o encenador Nelson de Baskerville – e a ficção de Esmir Filho e Mariana Bastos, Alguma Coisa Assim, mas já vi que terei problemas, porque encontrei Marcelo Caetano no café da manhã e ele me disse que haverá um debate às 6 da tarde, no MAM, sobre militância. Os debatedores serão Sebastiano Riso e ele. Conheci o italiano ontem e ele fez um filme fodaço, Uma Família, sobre a indústria da adoção, na Itália. Patrick Bruel tem uma relação sado-masoquista com Micaela Ramazzotti, a quem engravida periodicamente para vender os bebês. Riso e o companheiro tentaram adotar, a lei italiana não permite. A solução seria o mercado negro – perdão, paralelo – de bebês, que existe. Segundo o próprio diretor, Uma Família era o único filme de temática social na competição de Veneza, este ano. Riso baseou-se numa história real. Foi, denunciou o horror – na tela e nos debates – e a consequência foi que tomou porrada. Um cara invadiu a casa dele e bateu tanto que Riso foi parar no hospital. Queixa-se até agora de dores no peito, tem dificuldade para respirar, a vista treme. Tal é o estado do mundo – da Itália. Riso pertence à primeira geração de cineastas italianos egressa do que chama de ‘ditadura de Berlusconi’, que foi a herança da Operação Mani Pulite. Vai ser, acredito, um debate forte, e se eu for perderei o Esmir (mas sempre poderei recuperar o filme depois, já o debate é neste sábado ou nunca). Já que estamos nos finalmentes, foi uma Première Brasil à altura do tema do festival – Aqui se vê o mundo. Na Première, conseguimos ver o Brasil. É verdade que, gostar, gostar mesmo, foram poucas ficções. As Boas Maneiras, com a melhor atriz deste ano, Isabel Zuaa, Como É Cruel Viver Assim e Aos Teus Olhos, com o melhor ator, Daniel de Oliveira. Entendo a fascinação de algumas pessoas por O Animal Cordial, mas não gostei nada do filme de Gabriela Amaral Almeida. Entendo a fascinação de outras por Açúcar, e o longa de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira tem coisas interessantes num conjunto desequilibrado. E, claro, sempre tem o Eduardo Nunes. Ainda teremos muito assunto sobre essa Première Brasil. Agora, é com o júri.