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Festival do Rio 9/A vida como um vaso de flores

Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2016 | 11h26

RIO – Concentrado na Première Brasil, vi coisas pontuais de outras seções do Festival do Rio 2016, e uma das que mais gostei foi Inditnação, de James Schamus, que estreia em 3 de novembro. Rodrigo Teixeira é o produtor. O próprio Schamus foi produtor (de Ang Lee, 12 filmes!). É simpaticíssimo. Cobrei-lhe, como presidente do júri do Festival de Berlim, o Urso de Ouro que atribuiu ao chinês Black Coal, Thin Ice, de Diao Yinan, um filme estilizadíssimo, muito diferente do dele. Schamus me contou como a experiência do júri foi enriquecedora e, sem se isentar, falou sobre a pluralidade. Muita gente – diferenças de gostos, de culturas. Deixou mais ou menos claro que foi uma decisão da maioria. Vivi uma experiência democrática semelhante em Brasília, há pouco. Nada que me envergonhe, claro. Aliás, democracia… Há uma frase maravilhosa que ouvi, justamente no filme de Schamus. Democracia, segundo Benjamim Franklin, é a reunião de dois lobos e uma ovelha decidindo quem será o jantar. Genial, não? Tudo a ver com a criminalização de figuras públicas, no Brasil de hoje, promovida pelo Judiciário com a conivência da mídia que representa interesses de classes, como bem assinalou Eliane Caffé na apresentação de Era o Hotel Cambridge. O filme de James Schamus baseia-se em Philip Roth. Um garoto judeu vai para a universidade nos anos 1950. Muitos jovens estão morrendo na Coreia. Ele se envolve com uma garota avançada para sua época. No primeiro encontro, ela o chupa. Ele, inexperiente, não sabe como lidar com aquilo. Garotas decentes não agem assim, ou não deveriam. Muito preconceito na sua cabeça. Mas ele a ama. Uma crise de apendicite o leva para o hospital. A mãe, com o filho fragilizado, anuncia que não aguenta mais o marido, e quer se divorciar. O garoto pensa no pai com infinita tristeza, porque nem anda bem com ele. Um velho açougueiro kosher. A mãe propõe uma barganha. A indignação! Mas não é só isso. O protagonista, sob outros aspectos, muito maduro para sua idade, contesta o reitor da universidade. Crenças políticas, religiosas. Diálogo taco no taco. Ninguém é vilão. A mãe, o reitor. Tudo o que dizem é perfeitamente lógico. Talvez seja o pior nessa história toda. Tive de agradecer a James Schamus. O cinema não nos tem acostumado a esse tipo de cena – do garoto com o ‘dean’. Em Uma Paixão Tranquila, Terence Davies cria várias cenas assim – Emily Dickinson contesta verbalmente a superiora no convento em que faz sua educação. Contesta a autoridade do pai, do irmão. Comentei o Terence Davies com James Schamus. Ele me disse que está louco para ver. Os autores se reconhecem. E os atores de Indigtnação… Logan Lerman, Sarah Gadon. Formam um dos casais mais belos que já vi. E são ótimos, em papeis difíceis. Caminhando com o amor e a morte. A vida representada por um vaso de flores. Quando virem o filme vocês vão compreender. No dia 3. Gostei demais.