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Festival do Rio (8)/O horror não termina nunca

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2017 | 11h35

RIO – Tenho feito entrevistas ótimas. Luca Guadagnino, de Me Chame pelo seu Nome, parece que foi antipático com todo o mundo, mas eu gostei de ter falado de novo com ele, mesmo que a presença do produtor Rodrigo Teixeira tenha me inibido um pouco – confesso! -, me desviando da entrevista que queria ter feito. Lucrecia Martel foi maravilhosa, outro italiano, o Jonas Carpignano, de A Ciambra, foi uma simpatia, e é sempre bom reencontrar os brasileiros. Vou fazer a mediação do debate com Júlia Rezende e o elenco de Como É Cruel Viver assim. No outro dia, encontrei Marisa Leão e ela me falou da próxima produção. Sérgio Rezende começa a filmar em novembro Paciente, sobre a agonia de Tancredo Neves. O filme começa com a eleição indireta de Tancredo – o relator da segunda denúncia contra Temer, by the way, votou sempre com os militares, contra as Diretas e em Paulo Maluf, ‘pelo bem do Brasil’, como diz que fez agora – e termina com a posse de José Sarney. Muito interessante. Vi ontem à noite, na Première Brasil, outra produção da RT. O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida, pelo qual Luciana Paes dificilmente deixará de ganhar o Redentor de melhor atriz. Espero não me arrepender do que vou dizer, porque escrevo no calor da emoção e um certo distanciamento talvez se fizesse necessário. Mas muita gente – algumas pessoas, pelo menos – acharam que é o melhor filme, até agora. Eu achei que o filme da Gabriela tem tudo a ver com The Square, mesmo que ela o tenha feito desconhecendo por completo a existência do trabalho (simultâneo) do sueco Ruben Ostlund. Começa num restaurante que já está fechando. As tensões entre a cozinha e o salão. Começa um assalto e o filme vira terror. Não o tradicional embate social, mas algo mais visceral e escatológico. Banho de sangue. Na entrevista com Steven Soderbergh que está hoje no Caderno 2, ele me disse que já foi sondado para fazer um filme sobre o recente atentado em Las Vegas. A questão, que não é simples, é – por que o cara fez aquilo? Ele não tem resposta e acha arriscado começar às cegas, por isso disse não. No Animal Cordial – uma contradição em termos: o brasileiro é considerado cordial, e o País é racista, preconceituoso, etc; pode um animal ser cordial? Cuidado com o instinto -, alguém arrisca uma interpretação para a explosão de violência e a resposta é ‘Você não me conhece.’ É verdade. Ninguém conhece ninguém completamente, verdadeiramente. Gabriela, apresentando seu filme, nem parecia que estava por vir uma explosão de selvageria. No documentário Em Nome da América, um dos entrevistados definiu as cinco idades do homem – idealista, pragmático, cínico, etc. Eu, que tecnicamente já estou velho e enterrado nessa m… toda, não desisto do meu romântico idealismo, mesmo sabendo que Rocco, na obra-prima de Luchino Visconti, é uma vítima (de si mesmo, inclusive). Há algo em mim que, ideologicamente, se recusa a aceitar essa visão derrisória dos homens como seres sociais. Mas tenho de tirar o chapéu. O elenco de O Animal Cordial se expõe. E é, sem exceção, genial.