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Festival do Rio (7)/Uma fatia de Cannes

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2017 | 10h44

RIO – Entrevisto daqui a pouco Michel Hazanavicius, diretor de O Formidável, que já vi em Cannes. Jean-Luc Godard pelo diretor de O Artista. Godard, que ama Anne Wiazemsky, atriz de Robert Bresson no cultuado A Grande Testemunha/Au Hazard, Balthazar. Godard, que sonha ser revolucionário no Maio de 68 e as lideranças do movimento, que o acusam apenas de ser um petit bourgeois. Godard clown, em nu frontal – Louis Garrel -, refletindo sobre como isso, a nudez, é desnecessário (secundário?) na arte. Godard reacionário? Assunto é que não vai faltar na entrevista. O festival mostra também 120 Batimentos por Minuto, mas quem vem apresentar o filme não é o diretor Robin Campillo e sim o ator franco-argentino, com quem falo amanhã. 120 Battements par Coeur era o favorito do presidente do júri, mas não levou a Palma em Cannes, em maio. Na coletiva de apresentação do júri, Pedro Almodóvar disse que seria um presidente democrático. Só de olhar as pessoas, ouvir as falas, ficou claro para mim que Paolo Sorrentino pode ter sido o presidente de fato, e que a vitória do sueco Ruben Ostlund, de The Square, veio através dele. O filme tem muito mais a cara de Sorrentino. O cinismo do mundo contemporâneo, o choque. Diretor de museu abriga uma exposição, uma performance. A arte, em si, já seria uma provocação e um tapa na cara da sociedade ‘hipócrita’, mas aí tem a ambiguidade do diretor, a do artista, o mundo todo ao redor. The Square passa na Mostra. Tem tudo a ver com as reações que certas manifestações artísticas estão provocando no Brasil atual. 120 Batimentos vai nessa contracorrente. A luta contra os laboratórios, nos primórdios da aids. Solidariedade humana, guerra contra o preconceito. Almodóvar vs. Sorrentino. Julieta vs. A Grande Beleza, pior, Juventude. Por mais que não se queira criar tensão entre o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo, como grandes eventos de cinema – os maiores do País -, é curioso como este ano filmes divisores da representação do estado do mundo, como The Square e 120 Batimentos, estejam lá e cá.