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Festival do Rio 7/É muita coisa acontecendo

Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2016 | 10h04

RIO – Há vários dias que não consigo postar. Tenho tido muitas atividades. Mediei debate, tive um encontro com jovens críticos nacionais e estrangeiros, num arranjo do festival com o Talent Campus de Berlim, fiz entrevistas, assisti a muitos filmes e sigo produzindo, todo dia, meu material para o jornal. Tenho falado no jornal sobre filmes que me impactaram – o de Eliane Caffé, acima de todos – Era o Hotel Cambridge -, mas também o do Andrucha Waddington, Sob Pressão, e o documentário de Daniela Arbex e Armando Mendz, baseado no livro dela, Holocausto Brasileiro. Agora mesmo, no café da manhã, no hotel, aproximei a Daniela da Simone, do Cinesesc, porque acho que o filme, mesmo programado para estrear em novembro na HBO – e depois nas TVs de mais 40 países -, merece um cinema. Desde que li o livro sobre o verdadeiro genocídio praticado durante décadas no Hospital Colônia de Barbacena, no qual os ‘loucos’ eram tratados pior que bichos, sempre sonhei com uma versão para teatro, e com a ficcionalização, no cinema. Daniela fez um documentário. A chamada no cartaz é poderosa. A sociedade esconde o que não quer ver. Primeiro, um sanatório de luxo para tratamento da tuberculose de ricos, depois um depósito de alienados e, finalmente, um depósito de indesejáveis. Milhares de famílias livravam-se, no Hospital Colônia de seus entes (nada) queridos, e eles eram tratados como ‘detentos’, a palavra utilizada por um dos agentes que deveriam cuidar dessas pessoas. Daniela aponta o dedo acusador para o Estado brasileiro, a sociedade. O horror, o horror. E houve o filme da Eliane, sobre ocupações urbanas. FLM Frente de Luta por Moradia. Sem-tetos, refugiados, atores. Todo mundo interagindo numa (cine)dramaturgia inovadora, muito bem orquestrada pela ‘maestra’, ou maestrina, Lili Caffé. Um filme de criação coletiva, segundo ela, mas é possível identificar Narradores de Javé ali dentro. E José Dumont é sempre um ‘monstro’ de ator. Soprei no ouvido dele – tu tinha de ser inventado, se não existisse. Focado na Première Brasil, tenho visto pontualmente longas estrangeiros. Uma Paixão Tranquila, de Terence Davies. Cynthia Nixon, de Sex and the City,na pele de Emily Dickinson. A mulher, que Yoko Ohno chamava de ‘negro do mundo’ nos anos 1960, na literatura, no mundo. Não creio que Cynthia seja indicada para o Oscar. Se o fosse, teria de ganhar – seria escandaloso, se não ganhasse. E o Oscar é um clube fechado. É mais fácil apostar em Amy Adams, seja por Arrival, a Chegada, de Denis Villeneuve, ou pelo Tom Ford. Por falar em Emily Dickinson – em poesia -, Dib Carneiro me disse que está rolando o maior debate nas redes sociais. O Nobel para Bob Dylan. Letra de música é poesia? Há mais de 50 anos, Bob Dylan já cantava que era poeta, e sabia disso. Mr. Tambourine Man, Blowing on the Wind, Pat Garret e Billy the Kid, a Guerra do Vietnã. Bob Dylan sempre foi ídolo de Jotabê Medeiros, que deve estar feliz da vida. Para mim, sempre foi uma referência distante. Admiro-o como representante da contracultura, como crítico do establishment econômico e militar dos EUA, e não apenas. Mas, mesmo com o risco de parecer ridículo ou preconceituoso, não tenho paciência com a figura do Bob Dylan, com aquele chapeuzinho que ele usa (e gostaria de arrançar). Deve ser amuleto, como o Oscar que recebeu pela canção de Garotos Incríveis, de Curtis Hanson, que me informou o Dib, morreu no outro dia (em setembro!). Things Have Changed, a canção. As coisas mudaram. Mudaram mesmo? Quanto? E Curtis Hanson! Los Angeles – Cidade Proibida é um dos maiores filmes dos anos 1990. Sabia da gravidade do estado de saúde de Curtis Hanson, que o afastara do cinema, não sabia da morte. É muita coisa num só post, mas esse festival me deixa agitado. O post tem de dar conta desse redemoinho na minha cabeça.