As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Festival do Rio 6/O fim do segredo

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2016 | 09h56

RIO – Queria tanto ter visto É Caso de Polícia, o longa restaurado de Carla Civelli. Não deu. Vi um filme no começo da tarde, fui para a sucursal para fazer matérias, filmes na TV, e terminei atrasando. Não chegaria a Copacabana às 6, ainda mais com o far-west que virou o bairro (e o Rio) na segunda-feira, 10. Mas minha amiga Myrna já me fez saber saber que terei outra chance no sábado, 15. Terminei indo ver Pequeno Segredo, o longa de David Schurmann selecionado por aquela comissão para representar o Brasil na disputa pelas indicações do Oscar. Não é que eu tivesse má vontade contra o filme, mas confesso que esse tipo de história me causa certo constrangimento. Detestei aquele espetáculo teatral que a ‘crítica’ escolheu como melhor do ano – anos atrás – sobre diretor que rejeitou o irmão gay, o cara foi ser travesti na Europa, virou soropositivo, tudo isso sozinho, fodido e aí o irmão artista dez um espetáculo para se reconciliar com a memória do falecido. A ‘crítica’ foi mais generosa que eu. Lembro-me que, na época, detestei, ou quase. Não é exatamente o mesmo caso, mas ‘Deivide’ Schurmann também expõe uma relação familiar muito íntima. A irmã morreu – aos 14 anos -, acho que as circunstâncias da morte já são conhecidas e eu, que sou dado a spoilers, não digo mais nada, na eventualidade de que o leitor não saiba. Porque, afinal, é o pequeno segredo do filme, e revelado anula um pouco o pudor com que ele conta a história. Mentiria, se dissesse que achei o filme ruim. É bem-feito, mas numa concepção de cinema que não anda me interessando muito. Com medo de cair no melodrama, Schurmann é tão prudente que me deixou frio. E olhem que eu sou capaz de ir contra tudo e todos para resgatar o que há de visceral num filme como a adaptação do livro de Jojo Moyes, Como Eu Era Antes de Você. Na verdade, se algumas coisa faz a diferença em Pequeno Segredo é a interpretação, não de todo o mundo, mas as de Júlia Lemmertz e Marcelo Antony como o casal Schurmann. Júlia é filha de uma das maiores atrizes do Brasil, Lilian Lemmertz. A mãe tinha aquelas boca amarga, à Jeanne Moreau, que Walter Hugo Khouri soube utilizar melhor que ninguém, levando Lilian a encarnar um tipo de mulher moderna, blasé ou, pelo menos, desconfortável com sua situação no mundo. Não sei até que ponto se trata de um trabalho conjunto dela com o diretor, mas deve ser. Júlia me pareceu um modelo de contenção, representando seu sofrimento interior com os olhos. Gostei muito dela, do Marcelo, cujo talento Gabriel Villela, o grande, já realçara ao fazer dele o seu Macbeth e os dois farão nova parceria que promete, no palco. Pequeno Segredo foi recebido com comoção no fim da projeção, ontem à noite, no Odeon. O cinemas, lotado, prorrompeu em aplausos. Mesmo não sendo particularmente tocado, acho que o filme é sincero, uma pudica carta de amor de David a sua irmã, que surge em imagens reais, nos créditos finais. Um anjo. Não senti essa sinceridade naquele espetáculo de teatro. Mas a questão continua – a comissão que escolheu Pequeno Segredo estava sob suspeita. Ninguém tira da minha cabeça e da cabeça da torcida do Flamengo, se se interessasse pelo assunto, que Pequeno Segredo foi escolhido ‘contra’ Aquarius, da mesma forma que muito absurdo que ocorre hoje no País é em nome do antipetismo. Minha dúvida é quanto às chances de Pequeno Segredo no Oscar. A comissão fez uma grande aposta – ou se cobre de glórias, ou será cobrada até o fim dos tempos. Porque Pequeno Segredo estás nas contramão de tudo o que o Oscar tem premiado na categoria de filme estrangeiro. Pense nos vencedores recentes – o argentino O Segredo dos Seus Olhos, o polonês Ida, o húngaro Filho de Saul etc. O filme mais próximo de Pequeno Segredo as vencer foi outro argentino, Histórias Oficial, há quantos? Mais de 20 asnos… Talvez faça diferença o fato de ser uma história real, mas, além de não ser o filme que mais nos representa, entre os que disputavam a indicação, não possui, sorry, uma qualidade excepcional. Mas a aposta está feita. Parabéns à comissão, a David Schurmann, se der certo. Não creio muito, mas se há uma coisa de que me orgulho é de não entender nada de Oscar. Acertei quase tudo neste ano, mas houve uma boa dose de acaso e, certamente, não gostei do resultado. Para coimnpletar, sapí correndo o Odeon para tentar ver o filme de Andrucha Waddington no Roxy, na Premiére Brasil. Sob Pressão – a vida de um hospital precário situado na zona de guerra entre as comunidades e a polícia. Amei! O melhor filme do Andrucha. Urgente, forte. Esse nols representa – ou me representa. E o Júlio Andrade… Se não existisse, teria de ser inventado.