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Festival do Rio 4/O redemoinho que nos representa

Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2016 | 11h38

RIO – Há um filme de Denis Villeneuve chamado Redemoinho, com Marie-Josée Croze, de 2000. Ela faz uma mulher sexy e bem sucedida cuja vida entra em parafuso por conta de um aborto (e da falência da empresa). Desgraça pouca é bobagem. Fui ver ontem o Redemoinho de José Luiz Villamarim, com roteiro de George Moura, adaptado do volume II de Inferno Provisório, O Mundo Inimigo, de Luiz Ruffato. Não me perguntem por que, no meu imaginário, fui criando expectativa sobre o filme. Anna Luiza Müller, da Primeiro Plano, é minha amiga e mulher do George. Começou a me falar do filme, que foi feito em Cataguases, terra do mítico Humberto Mauro, na qual foi gestado o cinema brasileiro. Com todo respeito pela escolha da Abraccine – da crítica ‘burguesa’ -, no meu quintal Ganga Bruta dá de dez em Limite. Depois, assisti a uma intervenção do ‘Zé’ (Villamarim) numa mesa em Tiradentes. Entrevistei-o algumas vezes, e o cara, até onde sei, acaba de revolucionar a TV brasileira com uma minissérie que fez história, Justiça. Está no ar com um seriado, Nada Será como Antes, do qual vi os primeiros capítulos, em bloco – para matéria -, e gostei. Tudo isso soma, mas não explica, nem para mim, porque queria tanto ver Redemoinho. Engraçado é que ontem, ao chegar parta a sessão do filme na Première Brasil, no Roxy, dei-me conta de que não sabia nada do que ia ver. Dois amigos, só. Irandhir Santos e Júlio Andrade, os dois maiores atores brasileiros contemporâneos. Bastas, não? Com eles sempre se ganha alguma coisa. Dois caras de método, não necessariamente do método. Não conheço o original, vou logo dizendo. Tudo o que bateu na tela era novidade para mim. Mas ficou a apresentação do ‘Zé’. Ruffato, ao ver o filme, disse que é ‘necessário’. É forte, mas é vago. Cada um terá o seu conceito de necessidade. A propósito, mesmo não sendo o maior fã de Élio Gaspari, li hoje o abre da coluna dele. Procurava uma informação do festival. Fui ao Globo. Não vou reproduzir exatamente o título, mas é algo como ‘Temer não é ilegítimo, mas caótico’. Tem ali duas ou três safadezas econômicas que o presidente já fez e que não havia encontrado em nenhum lugar. Sabe como é – com aliado a gente não mexe. Preserva. Volto ao Redemoinho. O outro, o filme. Saí do cinema impressionado, mas impressionado com a estética. Esse cara sabe filmar. A chuva, o trem, as máquinas na fábrica. O som ao redor. O som como personagem, e o aparelho que usa – para se isolar? Ou é o contrário? – o personagem de Irandhir. A fotografia de Walter Carvalho, que tem sido parceiro de Villamarim na TV. Uma fotografia menos ‘bela’, exceto algumas tomadas para realçar a paisagem. Tudo opressivo. Impressionante, repito. Mas a ficha só caiu bem depois. No burburinho do final da sessão, perdi-me da Elaine (Guerini) e fui jantar sozinho no Lamas. E lá, com meu vinho, pensando no filme, tive… um troço. O choro veio. Mansinho, que eu não queria dar vexame. Amizade? Não. É mais uma cumplicidade, num crime, mesmo não premeditado nem intencional, mas que destrói muitas vidas. Um embate, o bem e o malsucedido na vida, mas como Irandhir cospe na cara do Júlio – ‘Tu viraste um fdp, canalha’. Viraste, ou já era? E Cássia Kiss Magro fazendo mais uma daquelas mães caladas, sofredoras, das quais só ela possui o segredo. Um filme necessário, cruel. Cruel porque necessário, necessário porque cruel. Não existe outras forma de nos representar hoje, o País. Algo se passa no fim. Uma revelação que muda muita coisa. Muda? É (só) o curso da vida. E o som da chuva, que lava tudo. Lava? Esse Villamarim não é fraco, não. Vou mediar o debate, à tarde. Espero que seja bom.