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Festival do Rio 3/As cidades onde se libertam as mulheres

Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2016 | 11h18

RIO – Sabia da existência do filme russo de Martha Nowill, mas não exatamente sobre o que tratava. Martha escreve, Charly Braun dirige Vermelho Russo. Duas atrizes, duas amigas, Martha e Maria Manoella, vão à Rússia, no inverno, para estudar o método Stanislawski de interpretação. Fazem elas mesmas e heroínas de Tchekhov. São libertárias. Ficam (com integrantes do grupo de teatro e locais), bebem (mmmuuuiiito). Num determinado momento, atrizes e personagens confundem-se. Elas brigam, agridem-se, fazem as pazes. Martha e Manu. Docudrama? O que existe ali de realidade? É tudo ficção? Achei bem interessante, e não tenho dúvida que seja ficcional. Vermelho Russo abriu a Première Brasil integrando a competição da categoria, mas o diretor embaralha os limites, de propósito. Devia haver muitos atores na plateia, porque riam bastante de situações específicas ligadas ao famoso ‘método’. Eu viajei à minha moda. Vermelho Russo tem tudo a ver com A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, que premiamos em Brasília. Duas amigas portuguesas, interpretadas por portuguesas de verdade, em Belo Horizonte. Sexo, bebedeiras, os pequenos e grandes problemas da convivência cotidiana. Tenho me explicado demais sobre os prêmios que o júri, do qual era membro, atribuiu a Cidade, mas minha inconformidade não é por não havermos premiado o programa de índio, que, aliás, respeito muito, e o filme de Vincent Carelli – Martírio – tem duas cenas poderosas, que, aquelas, sim, são cinema, e bom, mas não foram as que os debatedores mais apreciaram em Brasília. De qualquer maneira, tenho de fazer justiça a nosso júri. A Cidade Onde Envelheço venceu o Festival de Biarritz, na França. Duvido que qualquer outro filme da seleção brasiliense tivesse logrado isso, muito menos os meus preferidos, o gaúcho (O Rifle, de Davi Pretto) e o ‘cubano’ (Vinte Anos, de Alice de Andrade). De volta a Vermelho Russo, quando digo que minha viagem pelo filme foi muito pessoal, deve-se ao seguinte: o amigo russo, e o ator não se chama Sasha (é ficção!), me lembrou muito um tipo de macho eslavo, o filho de Andrei Tarkovski, que esteve na Mostra de São Paulo, e Sergei Loznitsa, o maior cineasta da Rússia contemporânea. No meio de Vermelho Russo, tive o estalo. Em Brasília, se houve um prêmio que nunca tivemos dúvida sobre a quem deveria ser atribuído foi o de som para O Rifle. Olhando para o Sasha, que me lembrou Loznitsa, me veio que Davi Pretto tem todas aquelas referências (e faz agradecimentos) a Abbas Kiarostami e John Ford, mas seu cinema tem muito mais a ver com Bruno Dumont e Sergei Loznitsa, com o desenho de som desse último. Viagem pessoal à parte, o olhar estrangeiro de Charly Braun sobre a Rússia é revelador, e como disse o diretor mulher bonita é o que não falta no filme dele. Tem até portuguesa no grupo, linda como as do filme da Marília. E agora talvez polemize. Charly, por ser homem, falando de mulheres, consegue ser mais… Porrada? Visceral? Suas atrizes ajudam. Botam para quebrar. Marília é mais delicada, sensível e o importante é que, na abordagem do feminino, creio que se pode perceber nesses dois filmes a tão decantada diferença de gênero, entre homens e mulheres. As de Vermelho Russo, filmadas por Charly, são mais ‘viris’, sem deixar de ser – com todo respeito – ‘mulherões’. E isso espero que seja visto como elogio.