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Festival do Rio (2)/Zama!

Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2017 | 12h48

RIO – Acabo de entrevistar Lucrecia Martel, que aqui está com Zama, seu longa que demorou quase dez anos. Lucrecia, Matheus Nachtergaele e a produtora Vânia Catani, da Bananeira, que se associou ao projeto, cooptada pela própria Martel. Zama estreou bem na Argentina, estreia, possivelmente em janeiro, no Brasil, distribuído pela Vitrine. Ecos de Aguirre, de Apocalypse Now. Zama é um funcionário da Coroa espanhola na fronteira paraguaia, durante o período colonial. Zama quer voltar para casa, ou ser transferido para o noroeste argentino, para a cidade que hoje se chama Salta – onde nasceu a diretora. O inferno na Terra – a natureza selvagem, os outros. Havia saído desconcertado da cabine do filme, mas ele ficou comigo e, cada vez que penso, as coisas fazem mais sentido. Lucrecia me disse uma coisa linda – nossa cultura judaico-cristã olha sempre para o futuro, buscando um fim. Deixamos de viver o presente, o aqui e agora, que vira passagem, e esse ‘meio do caminho’ é o inferno de Zama, representado por um perigoso bandido, que Matheus interpreta. O filme tem personagens negros, mas duvido que provoque as discussões sobre Vazante, de Daniela Thomas, que agitaram Brasília porque, os escravos são altivos, não se submetem na ficção de Zama. Lucrecia está muito interessada pela ‘mirada brasileña’ sobre seu filme. Ela já o mostrou em Veneza, Toronto, Nova York. O público dos países dominantes, colonizadores, vê a história de um jeito, mais ‘exótico’ – talvez. Ela quer ver as reações no Rio. O festival ocorre em hotéis de luxo em São Conrado. Um deles, o Meliá, ex-Nacional, bate de frente com a Rocinha e Lucrecia refletiu sobre o verdadeiro abismo social do Brasil. Do Meliá a Rocinha, à noite, parece um chão de estrelas, mas da Rocinha o Meliá deve ser um símbolo de exclusão, algo impossível, inatingível, que é difícil, para quem vive lá dentro, não odiar. A guerra civil não proclamada, mas real. Os tanques na rua. Vi as imagens de um documentário de Fernando Weller, Em Nome da América, sobre jovens dos EUA que vieram para o Brasil nos anos 1960, integrando o Peace Corps. O filme discute a infiltração da CIA no movimento – e no Nordeste -, mas o que mais me impressionou foi a fala de um daqueles coronéis, dando tiros parta o alto com seu revólver norte-americano e dizendo que trabalhador rebelde, no Engenho dele, ele mata. Não sei quanto as coisas mudaram nesse país, ou se mudaram como no Gattopardo. Para continuar as mesmas. Hoje à noite, na Première Brasil, vamos ter um filme de Henrique Goldman – Em Nome da Morte – sobre um pistoleiro profissional, interpretado por Marco Pigossi e responsável por quase 500 assassinatos no País. A vida humana segue valendo muito pouco para quem pode pagar. Zama integra a Première Latina e, como tal, concorre ao prêmio da crítica, Fipresci. Ainda é cedo para dizer quais são suas chances. O festival mal começou. Mas, pegando carona nesse tema do colonialismo – cultural -, não creio que seja uma boa lançar Zama em janeiro. É temporada de Oscar e o mercado é formatado para a produção de Hollywood. Por mais que exista um público ‘alternativo’, Zama representa o mais radical cinema de autor da América Latina. É uma gema como Jauja, de Lisandro Alonso, com o qual tem tudo a ver. Zama deve ter uns 20 logos de instituições e países que participaram da produção. Tem agradecimentos pessoais – a Danny Glover, Gael García Bernal, etc. Foi uma longa espera que agora produz seus frutos.