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Festival do Rio 2/Poesia em debate, ou O tango de Rodrigo

Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2016 | 09h41

RIO – Tive ontem um dia agitado. Não vi tantos filmes quantos gostaria. Pela manhã, assisti à cabine de imprensa de Dominium, de Steve Bernstein, sobre o (último dia do) poeta Dylan Thomas. O filme está tendo sua estreia mundial no Festival do Rio. Fui o primeiro jornalista que entrevistou Bernstein tendo visto o filme em todo o mundo. Tudo o que lhe propunhas estava no filme, eram viagens minhas, mas era novo para ele. Foi ótimo. Rhys Ifans tem uma atuação digna de Oscar como o poeta. Dylan é um poetas da entonação, do ritmo, da musicalidade. Encantava as plateias, principalmente femininas, recitando seus poemas. Mas era um monstro. De perto, ninguém é normal. Dylan Thomas bebia além da conta e, naquele dia, sabe-se lá por quê, estabeleceu o que ele próprio chamopu de alguma espécie de recorde. Tomou 18 doses duplas de uísque. O organismo, já devastado pelo efeito do álcool, entrou em colapso. O homem que seduzia com as palavras morreu vomitando a própria merda. Como se filma a poesia? Como se filma um bêbado? É interessante, mas conversando com Matheus Nachtergaele, que faz outro bêbado em Big Jato, Matheus me contou que Claudião (Cláudio Assis) o desafiava a beber, até cair, e representar. Contei para Bernstein, sem citar nomes. Ele achou radical, interessante, mas disse que não conseguiria trabalhar desse jeito. Nem Rhys. O ator se preparava, entrava na cena de um jeito que todo mundo no set pensava que estava bêbado, mas quando o diretor gritava ‘Corta!’, a falsa bebedeira dissipava-se. Bernstein não oferece explicações para a conduta derrisória de Bernstein. Por que ele bebe tanto? Por que se autodestrói? Um bêbado embriagado no próprio ego, sufocado no seu narcisismo. Na arquitetura dramática de Dominium, Dylan tem um antagonista, e é o bartender da taverna White Horse, em que vive seu último ato. Chama-se Carlos e é interpretado por Rodrigo Santoro. É seu melhor papel em língua inglesa. Disse-lhe ’em Hollywood’, mas ele corrigiu. Não é Hollywood. É produção inglesa, independente, à margem de Hollywood. Irá para o Oscar? Rodrigo poderia concorrer a melhor coadjuvante. Ele chegou lá. E está num momento glorioso – Velho Chico, o Cristo de Ben-Hur, Westworld, Carlos, não o chacal, mas o bartender. Todos esses trabalhos chegando ao mesmo, mostrando seu amadurecimento como ator. Carlos é um personagem 100% ficcional. E é um chacal, sim. É como age com o poeta, chegando pelas beiradas para devorá-lo. Suas falas vêm de Shakespeare, Yeats, Eliot. Rodrigo me contou que teve pouco tempo para se preparar. Disse ao diretor que não conseguiria, que para trabalhar tem de construir o personagem, assimilar o que ele diz, faz. Bernstein o queria tanto que construiu uma vida para Carlos, um passado que não aparece para o espectador. Deu a Rodrigo o roteiro das poesias de que tirou fragmentos, para que também ele se embriagasse de todos aqueles autores – mas sóbrio, ao contrário de Dylan. Rodrigo dança – um tango. Pô, Steven. Tango não tem nada com as gente, coim o Brasil, Rodrigo argumentou. Bernstein tranquilizou-o. Será umas metáfora. E é. Insisto que Rodrigo Santoro nunca esteve melhor no cinema de língua inglesa. Ele sabe, mas confessou – não é a mesma coisa representar em inglês. Velho Chico foi um reencontro com o Brasil, mas ele quer agora fazer teatro. Busca uma peça. E Rodrigo está jurado no Rio. Depois de ver Dominium, entrevistei o diretor e Rodrigo, conversei com a mulher produtora de Bernstein. Emendei com outra entrevista, com a francesa Rebecca Zlotowski, que mostra o novo filme, Planetarium. Como em Personal Shopper, o novo Olivier Assayas, o espiritismo – como imagem, como metáfora. Já entrevistei antes Rebecca – por Grand Central, com Léa Seydoux e Tahar Rahim. Acho-a linda, parecida com Marie France Pisier, atriz de François Truffaut. Foi outro papo legal, mas saí tarde da sede do festival. Cheguei às 5 en punto na redação. Tinha um monte de matérias, incluindo a capa de amanhã do Caderno. Daqui a pouco começa a coletiva da Mostra aí em São Paulo. Vou perder o Tom Ford, que estou louco para ver. A capa é uma entrevista com Renata de Almeida, sobre os 40 anos da Mostra, que fizemos Luiz Zanin, Ubiratan Brasil e eu, na quarta, antes de vir para o Rio. É curioso. Renata chegou à Mostra na 13.a edição. Eu também, mas cheguei no último dia. Desde então, ela faz a Mostra há 27 anos e eu a sigo há 26. Fiz os textos de sábado e domingo, corri para o Roxy para a Première Brasil. Vermelho Russo! No próximo post…