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Festival do Rio (1)/Nunca mais?

Luiz Carlos Merten

08 Outubro 2017 | 10h22

RIO – Quarto dia do 19º festival, incluindo a inauguração, na quinta, 5, e só hoje acrescento meu primeiro post. Para variar, tenho corrido bastante. Cabines pela manhã, entrevistas à tarde. Na sexta, atrasou o Luca Guadagnino, de Me Chame pelo Seu Nome, depois tive quase uma hora de entrevista por telefone com Steven Soderbergh e a consequência é que cheguei na sucursal, cheio de matérias para fazer, às 6 da tarde. (Não ajuda muito estar hospedado em São Conrado e a sucursal do Estado ser no Centro, na Av. Rio Branco.) Perdi os filmes do primeiro dia da Première Brasil e tive de recuperá-los ontem, sábado, à tarde, na sessão popular do Odeon, emendando com a Première da noite, no Lagoon. Pelo menos espero ter normalizado com a programação. O festival começou com protestos contra a Censura – Nunca Mais! -, mas não creio que a classe, unida, possa descansar. O ministro Sérgio Sá Leitão está contemporizando com a bancada evangélica, que ajuda a segurar o Michel naquela cadeira, e parece que teremos restrições – de conteúdo – aos filmes que podem requerer dinheiro público. Sá Leitão está preocupado com propostas que vilipendiam a fé e, como é que é, ‘promovem a sexualização precoce’? Estava no Odeon quando Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, brandiu o cartaz. Nunca mais? Prefiro, em nome do realismo, colocar a interrogação. Com tanta gente ‘de bem’ querendo a volta dos militares, da Censura… Loucos! Dib Carneiro é amigo do Bigode no Face. Trocam informações sobre o Lúcio Cardoso, que Dib adaptou para o teatro (A Crônica da Casa Assassinada) e de quem o outro Luiz Carlos foi amigo, além de adaptador para cinema. Dib me mostrou a foto que Bigode postou, em protesto contra os que se opõem ao nu na arte. Bigode tirou a roupa no set, em solidariedade a seus atores, que faziam uma cena de sexo, nus, na praia, em For All – O Trampolim da Vitória. Ouvi no outro dia uma entrevista do prefeito João Dória na rádio – e fiquei chocado com o que me pareceu a promiscuidade do entrevistador, Boechat, com ele, mas essa é outra história. Dória dizia que temos de respeitar os que se opõem a essas manifestações de arte, que se sentem ofendidos etc. Eu sempre fui solidário com eles, mas da mesma forma que sempre fui contra a Censura, desde os tempos dos militares. Ninguém é obrigado a ver o filme que não quer, a exposição que não quer. E tem impropriedade, pronto. Resolvido. Autoritarismo é querer impedir que os outros vejam. A maioria dessa gente que é contra não vai, ao natural, mas se sente ameaçada se alguém for. Por que? Porque isso exibe sua fragilidade? Sua ignorância? Vi ontem à noite Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor, com Daniel de Oliveira como professor de natação cuja vida é destruída nas redes sociais quando a mãe de um aluninho o acusa de abusar do filho dela. Sentei-me ao lado de Camila Morgado no Lagoon e comentamos – filmes como o da Carol e do própria Camila, que vi em Gramado, o Vergel da Kris Niklison, agora vão ficar mais difíceis, nesse Brasil da regressão. Enquanto isso, Sá Leitão… Duros tempos.