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Festival do Rio 10/Pitanga!

Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2016 | 10h29

RIO – Tenho meus problemas com Beto Brant. Não – ele tem comigo. Não era assim no começo de sua carreira. Se reproduzisse hoje alguns diálogos que já tivemos, ele provavelmente negaria. Não vem ao caso. Nunca deixei de admirar sua obra – certos filmes, pelo menos. Não sei quanto de Pitanga é dele, quanto é de Camila Pitanga, filha do homem que inspirou o filme. Só sei que tive uma epifania vendo o filme ontem – sábado, 15 -, à noite, no Odeon. Pitanga não é um filme. É um acontecimento – humano, estético, político. Antônio Pitanga já é um dos personagens mais intensos de Cinema Novo, o longa de Eryk Rocha sobre o movimento do qual seu pai, Glauber, foi o arauto. Justamente o movimento. Eryk abre seu filme com a imagem de Pitanga correndo. Um corpo em movimento, em transe. Esse corpo volta em Pitanga. Beto e Camila filmam encontros. Pitanga reencontra os amigos, os filhos – Camila e Rocco. Surgem conversas, da memória (afetiva, consciente) vêm as imagens dos filmes. As mulheres de Pitanga. Esse homem foi, é, uma potência. Seus reencontros com Zezé Motta, Tamara Taxman e Ítala Nandi são gloriosos. O amor por Benedita. Outros reenxcontros, com Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho e Lázaro Ramos, colocam a questão da negritude. E os grandes diretores com quem trabalhou. Glauber, Glauber, Glauber, mas também Cacá Diegues (tantos filmes), Trigueirinho Neto, Gianni Amico etc. No final, estava em frente ao Odeon, esperando pela próxima sessão, quando Marco Didonet me chamou para cumprimentar o próprio Pitanga. No palco, ele disse que ia ver o filme pela primeira vez. Disse-me que chorou muito vendo Pitanga, o filme. O garoto pobre, criado por uma mãe guerreira. O artista, o cidadão. Voltaram os gritos de ‘Fora, Temer’. Eu, emocionado, disse-lhe que chorei, também. Acrescentei que, se tivesse de escolher um só filme para resumir todo o Festival do Rio, seria esse. Pitanga. O filme vai estar na Mostra, com Birth of a Nation, de Nate Parker, sobre Nat Turner, o escravo que produziu uma sangrenta rebelião na ‘América’ segregacionista do século 19. Renata de Almeida quer fazer um grande debate sobre racismo. O debate começou aqui, na tela do Odeon, com filmes como o de Beto e Camila, mas também com aquele belo curta, Lápis Cor de Pele, que acompanhava Divinas Divas. No Odeon, que Pitanga definiu como o Maracanã do cinema. Foi um privilégio ver Pitanga, o filme. Abraçar Pitanga, o homem. Só isso já fez o festival 10 (ou 100, ou 1000), para mim.