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Festival do Rio (10)/Alexander Payne e o ‘encolhimento’

Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2017 | 11h43

RIO – Almocei ontem no Fashion Mall – depois de emendar diversas entrevistas, inclusive uma por telefone com Marco Pigossi, em que ele me revelou qual seria seu final sonhado para o Zeca de A Força do Querer – e aproveitei para passar pela Livraria Cultura, para conferir os lançamentos de DVD. Todo dia tenho de fazer um destaque no Caderno 2, e não tem sido fácil. Salva-me – aleluia! – a Classicline, que está sempre resgatando a produção antiga de Hollywood. Clássicos esquecidos… Escolhi para o Caderno 2 deste sábado um western do selo, Balas Que não Erram, de Jack Arnold, com Audie Murphy, contemporâneo de Minha Vontade É Lei, de Edward Dmytryk, e Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks, com os quais tem tudo a ver. Murphy chega a pequena cidade, é um famoso matador de aluguel e os cidadãos ficam em pânico. Quem ele veio matar? Só um, Charles Drake, ousa interpelá-lo. A sombra do macarthismo. Escrevi, no C2, que, embora os westerns não representem o melhor do diretor – Arnold deve sua reputação às fantasias científicas -, Balas Que não Erram é dos bons. Fiquei devaneando sobre O Incrível Homem Que Encolheu, que Arnold realizou com base numa história de Richard Matheson. Ecos de Kafka. Grant Williams começa a encolher ao ser acidentalmente exposto a uma nuvem radioativa – o tema do perigo atômico era dominante nos anos 1950 – e a vida dele vai virando um pesadelo. Reduzido a proporções liliputianas, trava batalhas épicas pela sobrevivência com o gato, a aranha. Termina berrando – ‘Eu existo!’ -, sem que o mundo ao redor se dê conta do seu desespero. À noite, e sem que tivesse planejado, fui ver Downsizing/Pequena Grande Vida. Tenho essa relação meio ambígua com o cinema de Alexander Payne. Acho seus filmes bons (alguns, pelo menos), mas é o tipo do cineasta supervalorizado – e no Oscar, então… A Paramount vai lançar Pequena Grande Vida em 18 de janeiro, ou seja, somente após o anúncio dos prêmios da Academia, o que já equivale a uma aposta. Um cientista norueguês descobre a fórmula de encolhimento das pessoas. É a solução para os problemas de superpopulação do planeta. A preocupação com o meio ambiente ganha novas formas. Agora é a sustentabilidade. As pessoas – reduzidas como Grant Williams, mas desta vez numa comunidade protegida de insetos e animais – consomem menos e seu dinheiro vale mais. Matt Damon entra no programa para salvar o planeta, Christoph Waltz para ter a vida de milionário que seu dinheiro não lhe permitiria ter. E existe a vietnamita – ativista social – que foi reduzida como forma de tortura e violência pelo governo que combatia. Damon sonha com uma vida harmônica com a mulher, mas as coisas começam não dando certo. Seus problemas aumentam à medida que encolhe, mas não seria um filme de Payne sem a possibilidade de um recomeço, por mais que o estado do mundo seja precário. O filme é interessante, com certeza irá para o Oscar – a vietnamita, principalmente -, mas fiquei com a nostalgia dos pequenos mestres, como Jack Arnold. Tantos grandes talentos foram encolhidos – ignorados – por essa mesma Academia que hoje mistifica… o médio?